terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

MULHER (ES), PODER (ES) E O(S) MEDO (S)...

Imagem publicada – uma foto (de uma série) da minha janela voltada para o pôr do sol (da deusa Disis), que intensifiquei como fogo no céu, acentuando os alaranjados, os azuis e os amarelos (próximos do que amo em Van Gogh), tempo visível com a sombra dos prédios que todos os dias posso avistar de minha janela aprisionada pelo tempo visto como passado, mas que se torna uma fulgurante demonstração de como podemos rever e transver nossas próprias horas, e se torna um tempo-vida-imaginação...

...’Esqueço as horas pensando em outras horas de quem tem poucas horas ou muitas horas. Ora Hora!... Não penso nas horas; elas e que me pensam’...

Preciso do silêncio e da negação de todos os sons para tentar pensar. Outro dia fui lembrado, nas ‘altas horas da madrugada’ que precisava me cuidar com a passagem do Tempo. Lembravam-me que, humano ainda, tenho um corpo físico e uma suposta saúde a deixar descansar. Este texto, como parto prolongado, nasceu em horas sem ruídos metálicos ou zumbidos alienantes. Em horas que não cabem nos relógios digitais ou ampulhetas.

Respondi com a frase acima, relâmpago afetivo, mais ou menos, sobre minha relação com as horas. As horas são e serão sempre femininas. As horas, conforme a mitologia grega são mulheres. Seriam as mulheres de Atenas? Aquelas cuja cidadania era negada, aquelas equiparadas apenas aos escravos. Ou seriam e são as guardiãs do Olimpo que organizam a passagem das estrelas? As que trazem a fertilidade da mudança?

Na versão apresentada pela Wikipédia são: - “As horas (em grego:  Ώρες, em latim: horae) constituíam, na mitologia grega, um grupo de deusas que presidiam as estações do ano. Filhas de Zeus e Têmis eram três deusas que personificavam a ordem do mundo. Eunômia (Εὐνομία, "legalidade") representa a legalidade, a boa ‘ordem’, as leis cívicas. Eirene ou Irene (Εἰρήνη, "paz") representa a paz. Dikê ou Dice (Δίκη, "justiça") representa a justiça”.

As horas também têm suas versões latinas. São também o tempo, as estações, as passagens dos momentos, das atividades de um dia ou as épocas. Quais seriam, hoje, as épocas que vivemos ou que nos dizem ou permitem ser vividas?  Vivemos o tempo em que a(s) Mulher (es), o(s) Poder(es) e o(s) Medo(s) encontram-se na(s)  mesma(s) encruzilhada(s)?

Como disse são, hoje, agora, nesse instante fugaz, nesse segundo, quando toco as teclas das letras que elas, as horas, aquelas deusas me assombram. Permitem-me, reles mortal, a aspirar com elas ainda sonhar com utopias, com as outras invenções gregas, tal qual a democracia. Entretanto, nesse mesmo passado do relógio, a História me diz que as deusas passaram a servir a outros ordenadores burocráticos do mundo.

Onde foram parar, pelo menos nesses territórios mais próximos, agora recriadores de novos muros e novas instituições, a legalidade, a Paz e aquela que pendula entre a espada e a balança? Passaram a ser apenas servas do Estado Nação ou de um novo Estado de Exceção?

Porém, se são Mulher (es) como já escrevi nos seus Dez(s) Mandamentos por aqui, não seguem os caminhos predeterminados pelos governantes mortais. Não se tornam, apesar de nossa persistência histórica, em escravas de um Tempo dos temores e dos desamores. Não se deixam capturar, completamente, pelas novas formas sutis de colonização de seus corpos e mentes.

O feminino e seu gozo não visíveis. Não há e nem haverá a possibilidade de sua total dominação. Nem mesmo pelas armas ou pelos exércitos ou pelas microfascistações do cotidiano e suas falsas horas. São, mesmo as mais humilhadas, ricas de outro modo de devir, outros poderes, outras desterritorializações e fugas. São e serão, mesmos as mais duras, profundamente, como as deusas, inspiradas pelas suavidades, caso contrário seus opostos se tornam soberanos.

As mulheres podem vestir togas, podem usar fardas, podem e devem cair nas homogeneizações e binarizações/dualidades. São sujeitos sociais, assim como todos o gêneros e indivíduos. Mas nenhum de seus uniformes retirará de seus corpos as suas castrações, ao contrário, podem acentuar suas falicidades. Como horas, passantes, mutantes e mutáveis, surpreendem e se surpreendem, como as heterogeneidades de formas de amar, apaixonar ou inventar. Elas são e serão uterinas, mesmo quando histerectomizadas pelos homens ou pelas novas tecnologias. Ou mesmo por outras mulheres in-vestidas de autoridade(s).

Para que continuemos a busca do feminino como liberdade, embora nos tenham levado às ilusões temerosas, cabe à(s) mulher (es) o restabelecimento do equilíbrio que as horas, não mais reificadas ou endeusadas, nos ensinaram e ensinam a desejar ir além dos permitidos. Ir além, dos preconceitos, das discriminações, dos mitos, das falácias, dos podres poderes e, principalmente do Medo.

Como, então, a partir das muitas feminilidades, das muitas multiplicidades, das singularidades e das pluralidades de ser e existir poderemos enfrentar essa Cultura do Medo? A resposta recente me veio de releituras de Espinosa e as novas de Antonio Negri sobre o filósofo polidor de lentes e mentes. De lá extrai o conceito de tempo vida e não de temporalidade. O viver como duração e não durabilidade.

Para A. Negri: “A filosofia de Espinosa exclui o tempo-medida. Ela apreende o tempo-vida. É por isso que Espinosa ignora a palavra ‘tempo’ – mesmo fixando seu conceito entre vida e imaginação. De fato, para Espinosa o tempo só existe como liberação. O tempo libertado se faz imaginação produtiva, radicada na ética. O tempo liberado não é nem devir, nem dialética, nem mediação. Mas ser que se constrói, constituição dinâmica, imaginação realizada. O tempo não é medida, é Ética...”.

O tempo é da ‘hora’ que retoma a Eunomia. Tal como o corpo feminino pode, se for libertado, se tornar o ser da revolução, da contínua escolha ética da produção. Do direito de não ser apenas um corpo reprodutor, mas aquele que enriquece o ser.

Pelos corpos que mesmo negados, ou ainda sob desmandos, ou sob midiatizações espetaculares, é que afirmo que a hora é a do ser-mulher, como forma de potência e transformação. Afirmo que, diante dos nossos desencantamentos coletivos, não nos iludamos com as organizações, mesmo as globais ou globalizantes.

A hora é a do desafio da quebra de alguns paradigmas. Macro e micropolitica-mente. A hora é do afirmar o respeitar as ‘minas’, mas tomando cuidado para pisar nas mesmas que alguns querem, belicosamente, semear em nossos caminhos e passos.

Quando, dos poderes visíveis, das ditas autoridades do alto, nos vem o anúncio de novos muros, novas discriminações, novas guerras, que muitos aqui não vêem como já existentes, as horas se tornam mais urgentes. Precisamos das outras horas, pois há sim outras deusas-horas, como Disis, que era a deusa da finalização do dia, o por do sol.

Este texto não crepuscular é um apelo, não uma alegoria, que convoca/provoca às mais poderosas e destemidas, às que podem abrir as portas de corações, podem encantar avenidas, podem desafiar ditadores, podem lançar foguetes no espaço, podem revelar verdades e desmitificar as ondas de alienação e submissão. À(s) Mulher(es) com o(s) Poder(es) de demolir(em) todo(s) o(s) Medo(s)...

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2017 ad infinitum, favor citar o autor em republicações livres pela Internet e outros meios de difusão, comunicação ou manipulação de massas...)

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domingo, 28 de agosto de 2016

O RETORNO DA INTEGRAÇÃO PELA INCLUSÃO: novos muros nas escolas, fábricas e hospitais...


Imagem Publicada – uma foto da publicidade do documentário BUDRUS; traz em contraluz colorido, com o sol crepuscular ao fundo, a figura de um homem entre duas cercas de arame farpado, que ele tenta destruir com um simples alicate. Esta cerca é o motivo de uma insólita união entre árabes mulçumanos e judeus, em um vilarejo entre a Cisjordânia e Israel, contra um polêmico muro que separaria palestinos e israelenses. Ele é uma realização da cineasta brasileira Julia Bacha, recebeu 15 prêmios internacionais, e nos mostra a possibilidade da Paz. Hamas e Fatah, Mulheres e Homens, Crianças e Velhos, diferentes e desiguais se unem contra a violência e a segregação.


Para os que pensam sobre a comemoração do Dia Internacional dos Direitos Humanos, dia 10, faço o convite para uma reflexão sobre os muros, as cercas e os ‘’limites’’ que, mesmos os invisíveis, nos podem cercear ou mesmo pisotear alguns direitos fundamentais.

Há momentos de nossas lutas pelos Direitos Humanos que precisamos pensar quem são os nossos verdadeiros ‘’inimigos’’. Ao assistir hoje o documentário Budrus pude refletir sobre a possibilidade de alguma ‘’sintonia’’ de interesses no atual campo das discussões sobre os retrocessos e conservadorismos que estamos enfrentando.

Nos últimos dias passamos de um plano “Viver sem Limites” para a reconstrução de institucionalizações dentro dos muros escolares ou reabilitadores. Primeiro com a proposta de um Decreto (6711/11) que retroagiu sobre os avanços conquistados da inclusão escolar. 

Hoje com um Projeto de Lei 1224/2011, da Câmara do RJ que coloca outro muro como opção para a Educação Especial, de crianças e jovens, na perspectiva de sua Inclusão caso “apresentam condições de serem incluídas, bem como dos demais alunos de turma regular, por meio da ampliação de sua participação na aprendizagem, nas culturas e nos meios sociais.” Ou seja, novamente o ‘’preferencialmente’’, ou melhor, quando “possível”, ou então na “saúde e na reabilitação"...

Nesse mesmo tom brasileiro estamos também vendo discursos contraditórios sobre a Reforma Psiquiátrica e a retomada das "internações involuntárias", compulsórias, sob a alegação de epidemias, só que por "contágio social" com o uso do crack. O alcóol mata 47 pessoas por dia,e isso não é uma epidemia? 

Nossas autoridades promovem uma destinação de 04 bilhões para um ‘’combate’. Mais um Plano do Ministério da Saúde. O seu principal resultado é a hospitalização ou a institucionalização forçada dos chamados ‘’craqueiros’’.

Uma “maioria” minoritária que vive à beira da sociedade e das linhas de trem. Moradores de rua e marginais que precisam ser cuidados e retirados da exclusão e desfiliação social. Onde os meios desta ação podem ser também violentadores...

Há, portanto um movimento de controle social, com novas macro e biopolíticas, anunciadas com muitos recursos públicos. Recursos que não podem ser apenas econômicos, pois a história já demonstrou o uso do dinheiro público para fins privados, tanto na Saúde, com a manicomialização, como na Educação, com a educação em espaços de clínicas de reabilitação.

Aí se encontram a Loucura e a Deficiência, as tecnologias de cuidado e pedagogia tornam-se hiper-especializadas e, consequentemente, segregadoras ou alienantes. E esta me parece ser a direção que, com as devidas contextualizações, estamos re-tomando. O caminho conservador, orientado pela macropolítica, das velhas institucionalizações "forçadas" por lei e "reforçadas" por emergências sociais. Novos muros em nossas aldeias globais.

O nome do nosso projeto para a acessibilidade, a saúde, a educação e o Viver para além dos limites pode ser comparado ao roteiro de Budrus. Estamos assistindo à uma construção de uma ‘’delimitação’’ legislativa e de práticas que violentam direitos já adquiridos. 

Como os palestinos temos algumas oliveiras ou cemitérios que não devemos deixar de defender. Mas precisamos, como eles, de aliados e de um movimento de resistência. Alguns já iniciaram a defesa/combate. O que temos de cuidar é que não nos tornem nossos próprios "inimigos".

Existe um risco de mantermos nossas tradicionais divisões por força identitária. Os que não veem, os que não ouvem, os que não andam, os que são multiplamente deficitários. E, como somos diferentes em nossas necessidades e incapacidades, caímos na oposição binária.

A oposição binária ocorre quando, por exemplo, nas categorias macho/fêmea, obscurecemos as diferentes formas de ser um homem ou uma mulher, seja na sua subjetividade, nos afetos, no desejo ou no comportamento. Tendemos a homogeneização, à mesmice ou “mesmidade”. Caímos nos narcisismos das pequenas diferenças...

Essa queda é o nosso principal calcanhar de Aquiles. É nessa multiplicidade forjada como heterogeneidade de direitos que o Estado e a Sociedade justifica o uso do efeito de ‘’retorsão”. Este é um conceito de Taguieff que constitui-se quando “um contendor se coloca no terreno discursivo e ideológico do adversário e o combate com as armas deste, as quais pelo fato de serem usada contra ele, deixam de pertencer-lhe pois agora jogam pelo adversário...

Por isso disse, no início, que precisamos reconhecer que são nossos atuais amigos e inimigos. Não faço aqui a apologia da guerra ou da violência. Como em Budrus faço a afirmação de uma união pela desconstrução desses muros que nos impõem, sejam estatais ou institucionais. Os argumentos que sempre utilizamos na defesa de uma Sociedade Inclusiva agora são os mesmos que se alardeiam em discursos políticos. E ainda nos indagam do que reclamamos e por que criticamos...

Portanto, diante da possibilidade da retorsão, e, mais ainda, da acusação de ideologização das questões, é que devemos refletir, coletivamente, quais são as ações de resistência que devemos produzir. 

Uma ação interessante e potencialmente criativa seria, hoje, abolirmos o uso da palavra INCLUSÃO, passemos, como nos discursos da Ordem, aceitar o retorno da INTEGRAÇÃO, do mainstreaming, como no recente Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, termo retomado para afirmar a questão do desenvolvimento, pela ONU.

Se a questão é a palavra DIVERSIDADE, como no projeto da Câmara do RJ, aceitemos que ela não representa, como nos demonstrou Homi Bhabba, a tal diversidade cultural, como um objeto do conhecimento empírico. Vamos esquecer sua advertência sobre o que significa uma DIFERENÇA cultural e os hibridismos e multiplicidades que nós vivenciamos.

Vamos aceitar "integrar" a diversidade, a partir do modelo segregador, deixando de lado quaisquer das singularidades. E as diferenças, mesmo dentro de casos, por exemplo, de Autismos nos justificarão para que estes frequentem apenas os Centros de Reabilitação ou escolas hiperespecializadas. Nunca teremos uma Temple Grandin em nossas escolas regulares...

Vamos, por exemplo, como nos tempos de ocupação da Amazônia, utilizar o slogan governamental: INTEGRAR PARA NÃO ENTREGAR. Iremos construir, diante um possível “ataque e invasão’’ de nossas fronteiras e territórios, uma grande muralha que proteja nossa maior diversidade ambiental: a floresta, sua flora, sua fauna, seus índios e seus diversos mananciais de água doce. A preservação tornar-se-ia aí o novo conservadorismo?

AÍ comparo a serialização dos eucaliptos com a heterogeneidade amazônica que podemos criar em nossas escolas ou outras instituições modelares. Podemos plantar a diferença ou mesmice, a bel prazer. Mas sempre colheremos um futuro possível ou a desertificação de nossas vidas. Por isso optemos pela busca de um além do reducionismo da integração.

Foi integrando um território pela força e pela segregação violentadora que Israel, construindo muros e distanciamentos, que viu o surgimento de uma resistência ‘’selvagem’’. E Budrus se tornou a obra de cinema, de vida, de re-existência de culturas diferenciadas, mas também um exercício de "combate pacífico".

Uma paz que se conquista com indignação, resiliência e resistência pacíficas. Um movimento que precisamos retomar para manter as conquistas que temos realizado. Nós, como uma personagem do documentário, diante de uma retroescavadeira, devemos ocupar o buraco por ela feito. 

E, para além de nossas diferenças, nos fincarmos, como uma oliveira plantada com carinho, que algumas mãos oportunistas insistem em arrancar de nossos territórios da saúde e da educação de pessoas com e sem deficiência. 

Só assim, com persistência e indignação, cada um e muitos de nós poderemos barrar o retrocesso atual, os “mesmos” que usam a retorsão para dizer que são as pessoas com deficiência que não se preparam para o mercado de trabalho. 

Não são as empresas ou o Estado que não cumprem a Lei de Cotas. Somos os causadores de nossa própria exclusão? Afinal nossas tragédias pessoais não são o que nos torna objetos de intervenção, internação involuntária ou “integração” social?
E OS MUROS INVISÍVEIS QUANDO É QUE INICIAREMOS A SUA DEMOLIÇÃO?



Copyright jorgemarciopereiradeandrade (favor citar o autor e as fontes em republicações livres na Internet ou outros meios de comunicação de massa)

BUDRUS – (2009) Documentário – Direção JULIA BACHA (BR)
http://www.justvision.org/budrus

Brasileira diretora de "Budrus" fala sobre premiação em Berlim
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5286132,00.html

Budrus Trailer - 3 Min
http://www.youtube.com/watch?v=ff7rScVrbos (legendas em português)
http://www.youtube.com/watch?v=YQQ8F2W5eB0 (legendas em inglês)

Documentário 'Budrus', de Julia Bacha, é lançado em DVD http://www.estadao.com.br/noticias/artelazer,documentario-budrus-de-julia-bacha-e-lancado-em-dvd,790731,0.htm

Plano Nacional de Educação: inclusão escolar ameaçada
http://inclusaoja.com.br/

Plano de enfrentamento ao crack deve aumentar leitos para atendimento
http://www.youtube.com/watch?v=SxGRHH7NEs8

Rio de Janeiro pode servir como exemplo positivo na internação pelo crack http://www.sidneyrezende.com/noticia/155255+rio+de+janeiro+pode+servir+como+exemplo+positivo+na+internacao+pelo+crack

Lei de cotas para deficientes não deve ser flexibilizada, defende CUT
http://www.redebrasilatual.com.br/temas/trabalho/2011/12/lei-de-cotas-para-deficientes-nao-deve-ser-flexibilizada-diz-cut

Leia também no BLOG:
DEFICIÊNCIAS E DIREITOS HUMANOS - MAIS UM DIA PARA COMEMORAR?
http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/12/deficiencias-e-direitos-humanos-mais-um_03.html

AS MASSAS, AS ÁGUAS, AS FLORESTAS  E NOSSAS VIOLÊNCIAS  http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/03/as-massas-as-aguas-as-florestas-e.html

sexta-feira, 29 de abril de 2016

A MEU PAI NOS SEUS 106 ANOS - O TEMPO DAS MÃOS

Imagem publicada- uma foto que fiz, em 2015, do encontro de minha mão que segura suavemente a mão que o Tempo não endureceu: a mão afetuosa de meu pai. Um filósofo pré-socrático, Anaxágoras, escreveu há milhares de séculos: 'o Homem pensa porque tem mãos...", e essa frase faz parte de meu caderno de poesias dos tempos de ginásio... Continuarei à procura desse encontro com a ternura, que depois do olhos, só se revelam, intensamente, com as mãos. E com o respeito pelo que elas podem escrever ou deixar como registro histórico ou marcas indeléveis como aquelas que só sabem obedecer, ordenar, cumprir, iludir, torturar e por fim assassinar... sejam com bombas, balas ou até canetas de tinta cheias de dores e não de amores. As mãos da foto, uma lavrou a terra quase 100 anos, a minha ainda quer deixar aqui outras sementes... me ajudem a semear...

PARA AQUELE QUE SEMPRE DISTRIBUIU O LEITE OU O AFETO, NUNCA PRECISOU ROUBÁ-LO.

Venho de muitas histórias, e muitas outras ‘’estórias’’, lá nas Minas que não são minhas nem nunca serão. Lá tenho hoje, mesmo à distância que contar um ‘causo verídico’. Contar um pouco da vida sempre resiliente de meu pai. Hoje passei o dia pensando e lhe desejando mais um ano, com dignidade e lucidez, mas também para que possa no próximo ano estar contando um pouco mais de suas sobre vivências. Quem sabe os seus bisnetos um dia o lerão.

Meu pai, embora filho do dono da fazenda e uma mulher negra,  Julia Maria da Conceição, minha avó em sua certidão, passou um bom tempo na função de empregado, de ‘retireiro’’. Aquele que cuida das vacas e delas tira o espumante leite logo cedo, antes do galo cantar. Viveu e sobreviveu um tempo que não sei dizer por lá. A sua certidão de filho bastardo só foi feita 05 (cinco) anos após seu nascimento, em 1915. Por ela agora ultrapassaria os 100 anos de vida, mas acho que já seriam suficientemente seculares as suas aprendizagens.

Há, apesar das lendas e estórias, entretanto e apropriadamente aos tempos que somos forçados a viver, uma “grande” experiência super vivida nessa época de Três Corações. Eram os anos da chamada Revolução de 1930, quando gaúchos e mineiros, insatisfeitos politicamente organizaram o Golpe que derrubou o presidente Washington Luiz, eleito, impediu a posse de outro presidente, Júlio Prestes, acabou com a “República Velha” e a “política do café com leite”, quando os cafeicultores paulistas romperam sua aliança com os mineiros. Começam aí algumas de nossas “diferenças” macropolíticas.

 O meu ‘velho’ só tinha então 20 anos, nasceu em 30 de abril de 1910. A quebra da bolsa de Nova Iorque repercutia no país. E mais uma vez em nome da ‘salvação da pátria’. Os sempre mesmos da oligarquia (governo de poucos) e das elites (os escolhidos, a escol, os mais ilustrados ou  mais espertos) geraram uma crise entre Minas e São Paulo.

Vieram então os anos 32 e ele aos 22 anos foi o único que permaneceu na fazenda. O único que não fugiu para as matas e embrenhados quando disseram que as tropas ‘paulistas’ vinham tomar o quartel de Três Corações. Como único que lá estava quando as tropas, provavelmente não muito numerosa, e com suas matracas (aparelhos que imitavam metralhadoras, já que o ‘exército’ constitucionalista não tinha nem armas e nem munições, apesar dos esforços das elites industriais de SP).

Eis então, o que pode ser parte de outra história ou estória: o único refém do ali, não muito longe do Túnel da Mantiqueira, o último bastião paulista, era o cuidador da fazenda. Segundo o que ouviu muitas vezes, até dele, sei que é não era uma invenção. Já havia lido nos livros de História sobre nossas ‘revoluções e seus golpes’.

Então, ele o super vivente, destemido, simplório, teve de cozinhar, alimentar, cuidar dos animais e ainda indicar as trilhas que poderiam levar essa tropa na direção certa. O que encontrei nas minhas pesquisas, como resumo, é que nesse tempo de guerra, que durou poucos meses, com São Paulo é que os paulistas ‘constitucionalistas’ foram derrotados pelos ‘’federalistas’’ da ditadura de Getúlio Vargas. Como se faz nos regionalismos ou separatismos: os 09 de julho passaram a ser feriado, e não os 02 de outubro, que teve aqui Campinas o último reduto paulista a se render.

E, você, seguidor ou não do blog, me leu o texto homenagem até aqui, ficará se indagando porque tanta descrição de um tempo já passado (?). Lá longe entre as Mantiqueiras, nossos crepúsculos e as águas minerais...

É que não poderia lhes falar do que mais aprendi com meu pai, principalmente ao caminhar junto dele, na beira da estrada entre Cambuquira e Três Corações, no caminho da roça, aquela que sempre amou: o exercício imprescindível, para além de quaisquer tempos ou guerras, da resiliência.

Essa capacidade de supervivência que pode até nos livrar dos sedutores abraços da Dona Morte. Um e-terno desejo de sobreviver, mas com dignidade e sem a necessidade de exterminar ou dominar o Outro. Muito pelo contrário como uma arte de buscar sempre aprender, aprender com o solo, mesmo o aparentemente árido, com a chuva que não veio, com a geada que virá, com as folhas que secam, com o frio que congela sementes ou o calor ensolarado que secará os grãos de café.

Tudo isso, história, “grandes Guerras Mundiais”, “revoluções”, “golpes de Estado”, “Ditaduras”, “Anos de Chumbo”,  “porões” e todos os mais intensos momentos da vida política brasileira puderam ser transversalizadores do Seu Arnaldo/corpo/vida, dito do Bar, mas que sempre fugiu para o chão a ser semeado, em busca de Paz com seus chamados “camaradas” do campo.

 Invejo hoje, e o confesso, a sua memória trans-lúcida do que viveu e aprendeu. Contento-me com o fato de ter podido inclusive, com ele, ter visto como se fazia a política dos tempos de UDN e dos Magalhães Pinto. Como eram vendidos, comprados e ‘santificados’ os políticos de carreira e suas promessas de campanha. Pela oposição ferrenha de minha mãe, e por seu caráter e honestidade, nunca se deixou trocar de papéis como ator social. Nunca precisou prometer o leite ou pão aos que precisavam em troca de votos.

Para ele dedico hoje minha escrita, em prosa, ainda espero o sopro inspirado de alguma poética para estes tempos onde se vende e compram até os mais legítimos votos. Tempos onde sob a ameaça de novas ditaduras ou democracias neoliberais, forjadas pelos mais vis espetáculos e midiatizações, me vejo mais envelhecido do que um homem livre de 106 anos. E, por isso, estou muito mais triste, muito mais desvitalizado do que ele.

PARA TODOS NÓS que podemos ainda respeitar os seus muitos anos vividos, sobrevividos e supervividos, deixo uma reflexão de Henry David Thoureau (1817-1862), no livro A Desobediência Civil –

“... Assim, a massa de homens serve ao Estado não na qualidade de homens, mas como máquinas, com seus corpos. São o exército permanente, as milícias, os carcereiros, os policiais, os membros de destacamentos, etc. Na maioria dos casos, não há, em absoluto, o livre exercício do julgamento ou do senso moral; ao contrário, eles se rebaixam ao nível da madeira, da terra e das pedras; e homens de madeira talvez pudessem ser manufaturados para servir aos mesmos propósitos [...] 

No entanto, homens assim são geralmente estimados como bons cidadãos. Outros – como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, ministros e funcionários públicos – servem ao Estado, sobretudo com a cabeça; e, como raramente fazem qualquer distinção moral, podem tanto servir ao Diabo, sem ter a intenção, como a Deus. Pouquíssimos – tais como os heróis, patriotas, mártires, reformadores em sentido amplo e homens – servem ao Estado também com sua consciência, e portanto necessariamente resistem a ele a maior parte do tempo; e costumam ser tratados por ele como inimigos. Um homem sábio só será útil na condição de homem, e não se rebaixará a ser “barro” e “tapar um buraco para deter o vento”, mas  deixará esta tarefa, quando muito, para suas cinzas.” (págs.10-11)

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade abril de 2016 até o dia que as cinzas forem levadas pelos ventos livres... favor citar o autor e autores em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação para as massas)

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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

SOB O "DOMÍNIO" DAS TELETELAS...

Imagempublicada– uma "auto"-fotografia publicada recentemente com a “plateia” de Mark Zuckerberg, leia-se Facebook, durante a última edição da Mobile World Congress–todos devidamente equipados com o Samsung Gear VR, alegremente (como são descritos em matéria citada) ignorando tudo o que ocorria ao redor, incluindo a passagem do sujeito ilustre. Estão todos sentados com ‘óculos de realidade virtual’ (Virtual Reality) no rosto, com uma uniformidade de suas roupas (ternos¿), aparentando serem na maioria do sexo masculino, recebendo uma ‘carga’ de informações sobre essa ‘nova’ e descartável tecnologia de ponta. Todos se vestem de azul, inclusive Zuckerberg, apenas com a diferença de que ele está de camiseta, calça jeans e tênis (descubra qual é a marca, e compre um par igual, mesmo que falsificado...). Fotografia difundida pelo Mark - I just joined Samsung to launch their new Galaxy smartphones and talk about the future of virtual reality.I told the... (Publicado por Mark Zuckerberg em Domingo, 21 de fevereiro de 2016)

Há uma naturalização de nossos tempos de “all by my SELFIES”: - NÃO SOU SE NÃO ME CONECTO. NÃO ME CONECTO, PORTANTO NÃO SOU.  SEM MEU SELFIE NÃO POSSO TER UM “SELF”? Todos os meios midiatizáveis, até os in-possíveis, contribuem para esta “modernidade” que nos faz querer apenas o ‘instantâneo’, mesmo que massificado e falso.

A robotização de nossos corpos já é considerada “normal” e tem mais um filme sobre nossas ‘pulsões’ (instintos¿) artificializadas. E vamos sorrir, pois o golfinho, o poeta ou o touro indomável que aparecerá compondo meu autorretrato pode já ter morrido, ou então é mortal, no seu duplo sentido.

Em artigo com o título: Em um futuro de tecnologias invisíveis, "offline" pode não ser mais uma opção, de Carlos Ferreira, no CanalTech, encontrei uma pérola. Uma gritante preciosidade da naturalização de nossos corpos defeituosos que virão a ser, um dia, “perfeitos”. Seremos todos, como no filme, Ex Machinas. Eis o que se constrói com pequenos e contínuos grãos de informação reificada. (ver a matéria completa em link ao final deste texto)

Diz o artigo: Talvez não seja arriscado dizer que uma tecnologia é tão boa quanto mais facilmente ela puder se fazer invisível”. E o autor arremata: “-. Em plena era digital – apesar do referido culto -, o que se vê é uma integração cada vez maior entre o indivíduo e as inúmeras ferramentas do dia a dia. Mas não apenas isso: conforme avançamos por este período orquestrado pela internet, torna-se mais e mais evidente certa fusão entre o universo virtual e o físico. Senão, basta andar pelas ruas: deve demorar bem pouco para que o primeiro sujeito corcunda apareça, andando decidido enquanto envia mensagens no WhatsApp, se guia pelo GPS ou dá lances em leilões online. E isso deve ser apenas o começo”...

Foi aí que me lembrei de Quasímodo (o quase perfeito), aprisionado e isolado do mundo no alto da catedral Notre Dame. E imaginei o que o autor pretendia com a palavra ‘’sujeito corcunda’’. Seríamos e seremos, em futuro próximo, todos neo-quasímodos¿

E por que nesse mundo integrado das máquinas e de nossos corpos estaríamos todos “tortos”, “defeituosos”, e “dobrados “¿ Será porque nos des/dobramos para caminhar entre nossos semelhantes, curvados sobre os smartphones¿ ou o peso simbólico que nos conectaria ao mundo internéticoglobal seria mais forte que nossas colunas de sustentação sapiens¿

Não tenho essas respostas, embora as deseje. Nossos tempos de velocidade e hiperconexão já foram uma preocupação para mim. Hoje, “naturalmente”, tenho de re-conhecer como estou imbricado, implicado e transversalizado por todas essas ‘tecnologias’. Entretanto, para não me curvar ainda mais, já que meus parafusos de titânio não me permitem, continuo buscando a postura mais poética, micropolítica e crítica possível. Afinal não quero descobrir que sou apenas um robô, uma ex_machina aperfeiçoada e cada dia mais in-sensível.

Nesse campo das sensibilidades e dos afetos é que encontro meus antídotos. Nessas buscas para além do que as novas ‘máquinas de escrever’ notebooks me proporcionam. Nesses abusos que me permito nas buscas de ferramentas dentro das buscas. Nas ultra/passagens e interrogações do que estamos a construir ou destruir para nossos próprios ‘futuros’.

Não consigo me desconectar, não tenho como. Acho que todos os ‘on line’ que estiverem lendo este texto sabem o que digo. Somente os que estão ainda considerados ‘off line’ (um grande número de habitantes do planeta, a sua metade) é que não acessaram estas perguntas sem respostas. Já fiz parte de um grupo que desejo um Livro Verde para a inclusão digital. Já acreditei que poderíamos ampliar e melhorar todas as vidas, até as mais miseráveis, se distribuíssem máquinas conectadas, mesmo que alimentadas por velhas mecânicas ou manivelas.

Hoje, após ler o artigo e ver o filme, sou obrigado a voltar à interrogação do texto que escrevi em 2012: seremos no futuro, todos ciborgues¿ ou já nos tornaram um pouco mais que isso: trans humanos que se auto iludem sobre os seus poderes, mesmo que os falsos “micro poderes”. Os micros poderes que não são atos de micropolítica. São apenas ‘propaganda’ e identificação projetiva banal...

 Aqueles que nos fazem difundir e ampliar a alienação e a vontade de micro fascistação do viver. Os mesmos que, ao negarmos nossas historicidades, propagam, imediatamente, quaisquer agressões, homofobias, racismos, misoginias, neo-fascismos e apologias da violência militarizada do viver. TUDO QUE ESTÁ NA INTERNET É FATO, mesmo que uma in-verdade, E NÃO FACTÓIDE!
Em tempos de microcefalias, que não devem ser ‘exterminadas’ e contágios de vírus que tenham também a função do barrar os contatos, se faz urgente uma reflexão sobre o quanto agora estamos, para além do domínio do medo, impregnados e sob o domínio das ‘teletelas’. E que George Orwell me autorize a cópia in-de-vida.

BEM VINDOS ao mundo do “exército de alienados” virtuais, Zuckerberianos ou verdeamarelistas, que se dobram, inconscientes e desejantes, ao convite ‘quase’ erótico das Ex Machinas que desejam nosso controle.

Descubram os mais da contramão, sem serem neo-luditas, na foto, que sempre há alguém que olha para trás, mesmo quando nos dizem que o passado nada tem a nos mostrar ou ensinar.

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade  2016-ad infinitum (favor citar as fontes e o autor em republicações ‘livres’ pela Internet ou quaisquer meios de mídia e comunicação sobre e para as massas)

FONTE – Matéria citada completa:
(O conteúdo do Canaltech é protegido sob a licença Creative Commons (CC BY-NC-ND). Você pode reproduzi-lo, desde que insira créditos COM O LINK para o conteúdo original e não faça uso comercial de nossa produção.)

Foto de Mark Zuckerberg na MWC 2016 pode dizer muito sobre nosso futuro http://www.tecmundo.com.br/mark-zuckerberg/100968-foto-mark-zuckerberg-mwc-2016-dizer-nosso-futuro.htm


Para ler e interrogar sobre o QI - Intelligent people have one thing in common https://www.ideapod.com/idea/Intelligent-people-have-one-thing-in-common/557678ba0a70e37c2f2d5277 (O ‘mundo’ já saberá em breve quantas horas estamos a=cor=dados ou já o sabe¿)

Sci-fi dreaming to desk-side vacations: The evolution of Virtual Tourism (A VIDA VIRTUAL)  http://mashable.com/2016/04/02/virtual-tourism-evolution-brandspeak/?utm_cid=p-LV-tw-bc#pGgAj_5KYPq

Óculos do Facebook é acusado de passar informações dos usuários para empresas http://olhardigital.uol.com.br/pro/noticia/-culos-do-facebook-e-acusado-de-passar-informacoes-de-usuarios-para-empresas/56965 

FILME INDICADO – EX MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL  http://www.adorocinema.com/filmes/filme-219931/
Ex_ Machina - Official Trailer (2015) [HD]  https://www.youtube.com/watch?v=XYGzRB4Pnq8
(Ex Machina (estilizado como EX_MACHINA) é um filme britânico de 2015 de ficção científica e suspense sobre um andróide com inteligência artificial. Foi escrito e dirigido pelo autor e roteirista Alex Garland, tendo sido a sua estreia como diretor. O filme foi protagonizado por Domhnall Gleeson, Alicia Vikander e Oscar Isaac, segundo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Ex_Machina_(filme)

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SEREMOS, NO FUTURO, CIBORGUES? PARA ALÉM DE NOSSAS DEFICIÊNCIAS HUMANAS http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html



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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O SUICÍDIO E A DOR

Imagem publicada – uma pintura que fiz há algum tempo atrás, e a memória me falha, de uma série a partir da foto que fiz de uma estátua de uma madona clássica, grega, e seu filho nos braços... Com tons predominantes em azul, violeta, cinza e fundo em amarelo, o amarelo que usam para simbolizar este mês dedicado à prevenção do suicídio, ao Alzheimer e outros padecimentos, desesperos ou temas esquecidos na velocidade em que se apagam as memórias do hoje. A foto, a fiz nos anos 80 em preto e branco. A memória evocada é a dos filhos e nossos filicídios praticados desde a Esparta bélica ontem até às praias da Turquia dos refugiados sírios da guerra suicida de hoje.

Este texto é dedicado aos que demolem, demoliram e demolirão todas as arrogâncias, as onisciências e onipotências, mesmo daqueles ou daquelas que o abraçam ou abraçarão em seu último salto vital... em vão ou não...

Hoje se fala com maior clareza sobre um tema que já foi negado, proibido e excomungado: o Suicídio. Nos dicionários ainda o definem como o ”ato de tirar voluntariamente a própria vida’’. Mas o que seria esse ”tirar’’, ele pressupõe que ela, a Vida, nos é dada, ou que teria e tem um sentido de valor, seja individual ou societariamente. Continuamos nos interrogando.

Desde Albert Camus não mais podemos nos negar a encarar sua relação íntima com outra palavra e experiência humana: a Dor. Camus, em seu Sísifo mítico, nos diz “que não há mais do que um problema filosófico verdadeiramente sério: o do suicídio. Julgar que a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão primordial da filosofia...”. Para a filosofia, desde Epicuro ou Empédocles, já tínhamos as implicações de dor/felicidade, viver in-tensamente, superar a dor do viver ou morrer.

Assisti hoje pela TV a campanha de prevenção de suicídios, e a repórter fez a conexão dos termos, temos hoje um grande número de suicídios, principalmente de jovens, que se matam (além dos que são mortos ou 'suicidados) não apenas pela dor, mas “pela certeza de que ela não cessará”. O que levaria, então, a tantos buscarem o suicidar como saída de algo que não cessa e nem cessará jamais...

Segundo a Radio Onu: “...o primeiro relatório sobre prevenção ao suicídio da Organização Mundial da Saúde, OMS, fez um alerta:  mais de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano no mundo. Isso representa uma morte a cada 40 segundos”.  Para a OMS desses 800.000 mil são, na maioria, jovens entre 15 e 29 anos que se suicidam por ano. Já em matéria daqui crescem o número para 1.000.000 de suicídios, em estatísticas que merecem atenção, mas também um olhar crítico e bioético. Publicam que temos 25 suicídios por dia no Brasil.

Portanto, não bastará um mês, este setembro. Um dia, uma semana ou uma campanha internacional vestindo o amarelo alerta para interromper todas as dores que assolam e se recrudescem globalmente. A produção dos padecimentos, perdas, ruínas, guerras, desfiliações, migrações forçadas, desamparos, depressões, desempregos, trabalhos escravos, gentrificações, pauperizações e desastres econômicos continuam a produzir a serialização de aflitos e de desesperanças no viver.

Morrer se naturaliza e se torna banal. E há os que ainda pregam e legitimam mais armas em todas as mãos...

Não há apenas os que suicidam, na concepção do “tirar” a própria vida, muitas delas já foram “roubadas, vilipendiadas, extorquidas, humilhadas, miserabilizadas”, e daí surgem, como diria Artaud sobre Van Gogh, ‘os suicidados pela Sociedade’. Portanto, repensando a visão ainda condenatória do sujeito, há que repensar a ‘culpabilidade e irresponsabilidade’ dos que, moralisticamente, se sentem violentados pelas dores que os suicídios e suicidas causam.

No Nepal, lá nas alturas, onde se espera que o espiritual seja tão rico como as neves do Himalaia, após o último terremoto, já meio esquecido pelo Ocidente, de acordo com a matéria Agencia EFE: “O número de pessoas que tiram a própria vida subiu no Nepal, com um aumento do 41,24% nos três meses posteriores ao terremoto que castigou o país em abril, em comparação aos três meses anteriores...”.

A maioria, pelos mesmos motivos que afligem a Síria, Ruanda, Haiti, Sudão ou qualquer outro país onde a terra é varrida por bombas, terrorismos ou por tremores, da Gaia ou dos Homens. Há os que são e serão afogados no Mediterrâneo ou no Egeu. Fogem de terrores nas suas terras de origem e se afogam nas águas que podem levar para uma neo escravidão e segregação, quiçá ‘menos’ terrível do que já viviam. Muitos, depois, não suicidarão...

A hora é de resgatar o poeta Jonh Donne e repicar os sinos que também dobram por nós, nós que também somos tão tristemente humanos como o menino sírio na praia turca. Nós que também somos suicidados embora naturalizemos nossas cotidianas e quase invisíveis formas de nos matar. Nós que julgamos covardes ou egoístas os que desistem de atravessar outros mares ou quando não há mares, só desertos e solidão.

Retomo aqui o binômio do texto, há sempre dor no suicídio. Seja dos que o cometem, seja dos que os padecem, experimentam sem tréguas ou dos que a negam tê-la infligido. Abdulá Kurdi, o pai sírio, assim como eu já o fui, deve ter pensado nesse último refúgio diante da perda irreparável.

Aos que não escutam ainda o que é dor do Outro reflitam sobre a frase de uma enfermeira especializada em cuidar e manejar essas dores: “A dor é qualquer coisa que a pessoa que a experimenta diz que é, e existe sempre que essa pessoa diz que existe.” (Margo McCafferty). Talvez isso possa não aliviar e nem diminuir a dor. Com certeza poderá criar o segundo que preciso ter antes de saltar da ponte ou se imaginar nos braços da Dona Morte.

Nos suicídios, nos diferentes suicídios, somos ‘refugiados’ da Dor ou de outras dores....

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-2016 favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de e para as massas)

IN MEMORIAM de AYLAN KURDI (poema publicado no Facebook 03/09/2015)

NOS MEUS BRAÇOS, ME DEIXAM NATIMORTO...
 (jorgemárciopereiradeandrade 2015)

Nos meus, nos seus, nos nossos braços
Depositam-nos mais um natimorto...
Nasceu como os outros, quase cresceu,
Mas ao mar dos sargaços e dos sarcasmos
Lançados, despejados e quase vivos jogaram...

Nos braços hiper capitais
E de capitães de econômicas areias movediças,
São lançadas, como grãos dessas areias, aos milhares, aos milhões,
Muitas outras, muitos Outros, muitas nuas e re-vestidas
Crianças apátridas e filhotes de guerras,
Filhotes, que não são nossos filhos...

À distância são e serão primeiro Zoé, coisa e bicho,
Depois, como Homo Belicus, nos dizem que somos Bios, somos gente de bem,
Mas nos tratam como nosso próprio lixo, escombros de bombas e perdidas balas...

Já esses/essas que nascem previamente mortos,
Pela falta de preço e apreço, ou royalties bélicos, tão numéricos,
Nas margens onde os crio sem os amar, se tornam Mar,
Oceanos ou barrentos Rios, cheios meninos, meninas naturalmente mortos,
Ou serão eles seus próprios e futuros ontem assassinos¿...

TIREM URGENTE-MENTE, ESSES MENINOS OU MENINAS DOS MEUS BRAÇOS!
QUE AS ONDAS DE NOSSA PUREZA SOCIAL
LIMPEM DE NOSSAS PRAIAS E CONFORMES,
ESSES INCONTÁVEIS, POLUENTES E INFAMES...
LIMPEM NOSSOS TELESCÓPIOS, BINÓCULOS,
E/OU LENTES TELEVISIVAS,
 POIS QUE NOSSAS ‘BOAS’ CONSCIÊNCIAS,
SÓ CHOCAM QUANDO OS ENXERGAMOS BEM DE PERTO...

Matérias publicadas sobre prevenção de suicídios:

Brasil tem 25 suicídios por dia. Estado lança campanha de prevenção https://www.bemparana.com.br/noticia/404829/brasil-tem-25-suicidios-por-dia.-estado-lanca-campanha-de-prevencao





LEIAM TAMBÉM NO BLOG:


OS NOSSOS CÃES desCOLORIDOS - Nossas "depressões" e o Dia Mundial da Saúde Mental  http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/os-nossos-caes-descoloridos-nossas.html


A DONA MORTE É GLOBAL, MAS NOSSO TESTAMENTO PODE SER VITAL. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/09/a-dona-morte-e-global-mas-nosso.html

CRIANÇAS SÃO MORTAIS! - O Suicidado pedagógico http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/09/criancas-sao-mortais-o-suicidado.html