sexta-feira, 29 de abril de 2016

A MEU PAI NOS SEUS 106 ANOS - O TEMPO DAS MÃOS

Imagem publicada- uma foto que fiz, em 2015, do encontro de minha mão que segura suavemente a mão que o Tempo não endureceu: a mão afetuosa de meu pai. Um filósofo pré-socrático, Anaxágoras, escreveu há milhares de séculos: 'o Homem pensa porque tem mãos...", e essa frase faz parte de meu caderno de poesias dos tempos de ginásio... Continuarei à procura desse encontro com a ternura, que depois do olhos, só se revelam, intensamente, com as mãos. E com o respeito pelo que elas podem escrever ou deixar como registro histórico ou marcas indeléveis como aquelas que só sabem obedecer, ordenar, cumprir, iludir, torturar e por fim assassinar... sejam com bombas, balas ou até canetas de tinta cheias de dores e não de amores. As mãos da foto, uma lavrou a terra quase 100 anos, a minha ainda quer deixar aqui outras sementes... me ajudem a semear...

PARA AQUELE QUE SEMPRE DISTRIBUIU O LEITE OU O AFETO, NUNCA PRECISOU ROUBÁ-LO.

Venho de muitas histórias, e muitas outras ‘’estórias’’, lá nas Minas que não são minhas nem nunca serão. Lá tenho hoje, mesmo à distância que contar um ‘causo verídico’. Contar um pouco da vida sempre resiliente de meu pai. Hoje passei o dia pensando e lhe desejando mais um ano, com dignidade e lucidez, mas também para que possa no próximo ano estar contando um pouco mais de suas sobre vivências. Quem sabe os seus bisnetos um dia o lerão.

Meu pai, embora filho do dono da fazenda e uma mulher negra,  Julia Maria da Conceição, minha avó em sua certidão, passou um bom tempo na função de empregado, de ‘retireiro’’. Aquele que cuida das vacas e delas tira o espumante leite logo cedo, antes do galo cantar. Viveu e sobreviveu um tempo que não sei dizer por lá. A sua certidão de filho bastardo só foi feita 05 (cinco) anos após seu nascimento, em 1915. Por ela agora ultrapassaria os 100 anos de vida, mas acho que já seriam suficientemente seculares as suas aprendizagens.

Há, apesar das lendas e estórias, entretanto e apropriadamente aos tempos que somos forçados a viver, uma “grande” experiência super vivida nessa época de Três Corações. Eram os anos da chamada Revolução de 1930, quando gaúchos e mineiros, insatisfeitos politicamente organizaram o Golpe que derrubou o presidente Washington Luiz, eleito, impediu a posse de outro presidente, Júlio Prestes, acabou com a “República Velha” e a “política do café com leite”, quando os cafeicultores paulistas romperam sua aliança com os mineiros. Começam aí algumas de nossas “diferenças” macropolíticas.

 O meu ‘velho’ só tinha então 20 anos, nasceu em 30 de abril de 1910. A quebra da bolsa de Nova Iorque repercutia no país. E mais uma vez em nome da ‘salvação da pátria’. Os sempre mesmos da oligarquia (governo de poucos) e das elites (os escolhidos, a escol, os mais ilustrados ou  mais espertos) geraram uma crise entre Minas e São Paulo.

Vieram então os anos 32 e ele aos 22 anos foi o único que permaneceu na fazenda. O único que não fugiu para as matas e embrenhados quando disseram que as tropas ‘paulistas’ vinham tomar o quartel de Três Corações. Como único que lá estava quando as tropas, provavelmente não muito numerosa, e com suas matracas (aparelhos que imitavam metralhadoras, já que o ‘exército’ constitucionalista não tinha nem armas e nem munições, apesar dos esforços das elites industriais de SP).

Eis então, o que pode ser parte de outra história ou estória: o único refém do ali, não muito longe do Túnel da Mantiqueira, o último bastião paulista, era o cuidador da fazenda. Segundo o que ouviu muitas vezes, até dele, sei que é não era uma invenção. Já havia lido nos livros de História sobre nossas ‘revoluções e seus golpes’.

Então, ele o super vivente, destemido, simplório, teve de cozinhar, alimentar, cuidar dos animais e ainda indicar as trilhas que poderiam levar essa tropa na direção certa. O que encontrei nas minhas pesquisas, como resumo, é que nesse tempo de guerra, que durou poucos meses, com São Paulo é que os paulistas ‘constitucionalistas’ foram derrotados pelos ‘’federalistas’’ da ditadura de Getúlio Vargas. Como se faz nos regionalismos ou separatismos: os 09 de julho passaram a ser feriado, e não os 02 de outubro, que teve aqui Campinas o último reduto paulista a se render.

E, você, seguidor ou não do blog, me leu o texto homenagem até aqui, ficará se indagando porque tanta descrição de um tempo já passado (?). Lá longe entre as Mantiqueiras, nossos crepúsculos e as águas minerais...

É que não poderia lhes falar do que mais aprendi com meu pai, principalmente ao caminhar junto dele, na beira da estrada entre Cambuquira e Três Corações, no caminho da roça, aquela que sempre amou: o exercício imprescindível, para além de quaisquer tempos ou guerras, da resiliência.

Essa capacidade de supervivência que pode até nos livrar dos sedutores abraços da Dona Morte. Um e-terno desejo de sobreviver, mas com dignidade e sem a necessidade de exterminar ou dominar o Outro. Muito pelo contrário como uma arte de buscar sempre aprender, aprender com o solo, mesmo o aparentemente árido, com a chuva que não veio, com a geada que virá, com as folhas que secam, com o frio que congela sementes ou o calor ensolarado que secará os grãos de café.

Tudo isso, história, “grandes Guerras Mundiais”, “revoluções”, “golpes de Estado”, “Ditaduras”, “Anos de Chumbo”,  “porões” e todos os mais intensos momentos da vida política brasileira puderam ser transversalizadores do Seu Arnaldo/corpo/vida, dito do Bar, mas que sempre fugiu para o chão a ser semeado, em busca de Paz com seus chamados “camaradas” do campo.

 Invejo hoje, e o confesso, a sua memória trans-lúcida do que viveu e aprendeu. Contento-me com o fato de ter podido inclusive, com ele, ter visto como se fazia a política dos tempos de UDN e dos Magalhães Pinto. Como eram vendidos, comprados e ‘santificados’ os políticos de carreira e suas promessas de campanha. Pela oposição ferrenha de minha mãe, e por seu caráter e honestidade, nunca se deixou trocar de papéis como ator social. Nunca precisou prometer o leite ou pão aos que precisavam em troca de votos.

Para ele dedico hoje minha escrita, em prosa, ainda espero o sopro inspirado de alguma poética para estes tempos onde se vende e compram até os mais legítimos votos. Tempos onde sob a ameaça de novas ditaduras ou democracias neoliberais, forjadas pelos mais vis espetáculos e midiatizações, me vejo mais envelhecido do que um homem livre de 106 anos. E, por isso, estou muito mais triste, muito mais desvitalizado do que ele.

PARA TODOS NÓS que podemos ainda respeitar os seus muitos anos vividos, sobrevividos e supervividos, deixo uma reflexão de Henry David Thoureau (1817-1862), no livro A Desobediência Civil –

“... Assim, a massa de homens serve ao Estado não na qualidade de homens, mas como máquinas, com seus corpos. São o exército permanente, as milícias, os carcereiros, os policiais, os membros de destacamentos, etc. Na maioria dos casos, não há, em absoluto, o livre exercício do julgamento ou do senso moral; ao contrário, eles se rebaixam ao nível da madeira, da terra e das pedras; e homens de madeira talvez pudessem ser manufaturados para servir aos mesmos propósitos [...] 

No entanto, homens assim são geralmente estimados como bons cidadãos. Outros – como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, ministros e funcionários públicos – servem ao Estado, sobretudo com a cabeça; e, como raramente fazem qualquer distinção moral, podem tanto servir ao Diabo, sem ter a intenção, como a Deus. Pouquíssimos – tais como os heróis, patriotas, mártires, reformadores em sentido amplo e homens – servem ao Estado também com sua consciência, e portanto necessariamente resistem a ele a maior parte do tempo; e costumam ser tratados por ele como inimigos. Um homem sábio só será útil na condição de homem, e não se rebaixará a ser “barro” e “tapar um buraco para deter o vento”, mas  deixará esta tarefa, quando muito, para suas cinzas.” (págs.10-11)

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade abril de 2016 até o dia que as cinzas forem levadas pelos ventos livres... favor citar o autor e autores em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação para as massas)

LEIAM TAMBÉM NO BLOG -

ENVELHE=SER OU TORNAR-SE, + 1 VELHO  

MEU PAI, NOSSAS MONTANHAS E NOSSOS CREPÚSCULOS  (UMA HOMENAGEM AOS SEUS 105 ANOS) 

O MUNDO ENVELHECE, AS INJUSTIÇAS PERSISTEM, ENTRETANTOS O MEU PAI FAZ 102 ANOS ...

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

SOB O "DOMÍNIO" DAS TELETELAS...

Imagempublicada– uma "auto"-fotografia publicada recentemente com a “plateia” de Mark Zuckerberg, leia-se Facebook, durante a última edição da Mobile World Congress–todos devidamente equipados com o Samsung Gear VR, alegremente (como são descritos em matéria citada) ignorando tudo o que ocorria ao redor, incluindo a passagem do sujeito ilustre. Estão todos sentados com ‘óculos de realidade virtual’ (Virtual Reality) no rosto, com uma uniformidade de suas roupas (ternos¿), aparentando serem na maioria do sexo masculino, recebendo uma ‘carga’ de informações sobre essa ‘nova’ e descartável tecnologia de ponta. Todos se vestem de azul, inclusive Zuckerberg, apenas com a diferença de que ele está de camiseta, calça jeans e tênis (descubra qual é a marca, e compre um par igual, mesmo que falsificado...). Fotografia difundida pelo Mark - I just joined Samsung to launch their new Galaxy smartphones and talk about the future of virtual reality.I told the... (Publicado por Mark Zuckerberg em Domingo, 21 de fevereiro de 2016)

Há uma naturalização de nossos tempos de “all by my SELFIES”: - NÃO SOU SE NÃO ME CONECTO. NÃO ME CONECTO, PORTANTO NÃO SOU.  SEM MEU SELFIE NÃO POSSO TER UM “SELF”? Todos os meios midiatizáveis, até os in-possíveis, contribuem para esta “modernidade” que nos faz querer apenas o ‘instantâneo’, mesmo que massificado e falso.

A robotização de nossos corpos já é considerada “normal” e tem mais um filme sobre nossas ‘pulsões’ (instintos¿) artificializadas. E vamos sorrir, pois o golfinho, o poeta ou o touro indomável que aparecerá compondo meu autorretrato pode já ter morrido, ou então é mortal, no seu duplo sentido.

Em artigo com o título: Em um futuro de tecnologias invisíveis, "offline" pode não ser mais uma opção, de Carlos Ferreira, no CanalTech, encontrei uma pérola. Uma gritante preciosidade da naturalização de nossos corpos defeituosos que virão a ser, um dia, “perfeitos”. Seremos todos, como no filme, Ex Machinas. Eis o que se constrói com pequenos e contínuos grãos de informação reificada. (ver a matéria completa em link ao final deste texto)

Diz o artigo: Talvez não seja arriscado dizer que uma tecnologia é tão boa quanto mais facilmente ela puder se fazer invisível”. E o autor arremata: “-. Em plena era digital – apesar do referido culto -, o que se vê é uma integração cada vez maior entre o indivíduo e as inúmeras ferramentas do dia a dia. Mas não apenas isso: conforme avançamos por este período orquestrado pela internet, torna-se mais e mais evidente certa fusão entre o universo virtual e o físico. Senão, basta andar pelas ruas: deve demorar bem pouco para que o primeiro sujeito corcunda apareça, andando decidido enquanto envia mensagens no WhatsApp, se guia pelo GPS ou dá lances em leilões online. E isso deve ser apenas o começo”...

Foi aí que me lembrei de Quasímodo (o quase perfeito), aprisionado e isolado do mundo no alto da catedral Notre Dame. E imaginei o que o autor pretendia com a palavra ‘’sujeito corcunda’’. Seríamos e seremos, em futuro próximo, todos neo-quasímodos¿

E por que nesse mundo integrado das máquinas e de nossos corpos estaríamos todos “tortos”, “defeituosos”, e “dobrados “¿ Será porque nos des/dobramos para caminhar entre nossos semelhantes, curvados sobre os smartphones¿ ou o peso simbólico que nos conectaria ao mundo internéticoglobal seria mais forte que nossas colunas de sustentação sapiens¿

Não tenho essas respostas, embora as deseje. Nossos tempos de velocidade e hiperconexão já foram uma preocupação para mim. Hoje, “naturalmente”, tenho de re-conhecer como estou imbricado, implicado e transversalizado por todas essas ‘tecnologias’. Entretanto, para não me curvar ainda mais, já que meus parafusos de titânio não me permitem, continuo buscando a postura mais poética, micropolítica e crítica possível. Afinal não quero descobrir que sou apenas um robô, uma ex_machina aperfeiçoada e cada dia mais in-sensível.

Nesse campo das sensibilidades e dos afetos é que encontro meus antídotos. Nessas buscas para além do que as novas ‘máquinas de escrever’ notebooks me proporcionam. Nesses abusos que me permito nas buscas de ferramentas dentro das buscas. Nas ultra/passagens e interrogações do que estamos a construir ou destruir para nossos próprios ‘futuros’.

Não consigo me desconectar, não tenho como. Acho que todos os ‘on line’ que estiverem lendo este texto sabem o que digo. Somente os que estão ainda considerados ‘off line’ (um grande número de habitantes do planeta, a sua metade) é que não acessaram estas perguntas sem respostas. Já fiz parte de um grupo que desejo um Livro Verde para a inclusão digital. Já acreditei que poderíamos ampliar e melhorar todas as vidas, até as mais miseráveis, se distribuíssem máquinas conectadas, mesmo que alimentadas por velhas mecânicas ou manivelas.

Hoje, após ler o artigo e ver o filme, sou obrigado a voltar à interrogação do texto que escrevi em 2012: seremos no futuro, todos ciborgues¿ ou já nos tornaram um pouco mais que isso: trans humanos que se auto iludem sobre os seus poderes, mesmo que os falsos “micro poderes”. Os micros poderes que não são atos de micropolítica. São apenas ‘propaganda’ e identificação projetiva banal...

 Aqueles que nos fazem difundir e ampliar a alienação e a vontade de micro fascistação do viver. Os mesmos que, ao negarmos nossas historicidades, propagam, imediatamente, quaisquer agressões, homofobias, racismos, misoginias, neo-fascismos e apologias da violência militarizada do viver. TUDO QUE ESTÁ NA INTERNET É FATO, mesmo que uma in-verdade, E NÃO FACTÓIDE!
Em tempos de microcefalias, que não devem ser ‘exterminadas’ e contágios de vírus que tenham também a função do barrar os contatos, se faz urgente uma reflexão sobre o quanto agora estamos, para além do domínio do medo, impregnados e sob o domínio das ‘teletelas’. E que George Orwell me autorize a cópia in-de-vida.

BEM VINDOS ao mundo do “exército de alienados” virtuais, Zuckerberianos ou verdeamarelistas, que se dobram, inconscientes e desejantes, ao convite ‘quase’ erótico das Ex Machinas que desejam nosso controle.

Descubram os mais da contramão, sem serem neo-luditas, na foto, que sempre há alguém que olha para trás, mesmo quando nos dizem que o passado nada tem a nos mostrar ou ensinar.

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade  2016-ad infinitum (favor citar as fontes e o autor em republicações ‘livres’ pela Internet ou quaisquer meios de mídia e comunicação sobre e para as massas)

FONTE – Matéria citada completa:
(O conteúdo do Canaltech é protegido sob a licença Creative Commons (CC BY-NC-ND). Você pode reproduzi-lo, desde que insira créditos COM O LINK para o conteúdo original e não faça uso comercial de nossa produção.)

Foto de Mark Zuckerberg na MWC 2016 pode dizer muito sobre nosso futuro http://www.tecmundo.com.br/mark-zuckerberg/100968-foto-mark-zuckerberg-mwc-2016-dizer-nosso-futuro.htm


Para ler e interrogar sobre o QI - Intelligent people have one thing in common https://www.ideapod.com/idea/Intelligent-people-have-one-thing-in-common/557678ba0a70e37c2f2d5277 (O ‘mundo’ já saberá em breve quantas horas estamos a=cor=dados ou já o sabe¿)

Sci-fi dreaming to desk-side vacations: The evolution of Virtual Tourism (A VIDA VIRTUAL)  http://mashable.com/2016/04/02/virtual-tourism-evolution-brandspeak/?utm_cid=p-LV-tw-bc#pGgAj_5KYPq

Óculos do Facebook é acusado de passar informações dos usuários para empresas http://olhardigital.uol.com.br/pro/noticia/-culos-do-facebook-e-acusado-de-passar-informacoes-de-usuarios-para-empresas/56965 

FILME INDICADO – EX MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL  http://www.adorocinema.com/filmes/filme-219931/
Ex_ Machina - Official Trailer (2015) [HD]  https://www.youtube.com/watch?v=XYGzRB4Pnq8
(Ex Machina (estilizado como EX_MACHINA) é um filme britânico de 2015 de ficção científica e suspense sobre um andróide com inteligência artificial. Foi escrito e dirigido pelo autor e roteirista Alex Garland, tendo sido a sua estreia como diretor. O filme foi protagonizado por Domhnall Gleeson, Alicia Vikander e Oscar Isaac, segundo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Ex_Machina_(filme)

LEIA TAMBÉM NO BLOG –


SEREMOS, NO FUTURO, CIBORGUES? PARA ALÉM DE NOSSAS DEFICIÊNCIAS HUMANAS http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/seremos-no-futuro-ciborgues-para-alem.html



RACISMOS, BARBÁRIES, FUTEBOL... ONDE ENTRECRUZAM AS VIOLÊNCIAS SOCIAIS? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/05/racismos-barbaries-futebol-onde.html


MOVIMENTOS, MASSAS, MANIFESTOS E HISTÓRIA: POR UMA MICROPOLÍTICA AMOROSA, URGENTE. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/06/movimentos-massas-manifestos-e-historia.html

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O SUICÍDIO E A DOR

Imagem publicada – uma pintura que fiz há algum tempo atrás, e a memória me falha, de uma série a partir da foto que fiz de uma estátua de uma madona clássica, grega, e seu filho nos braços... Com tons predominantes em azul, violeta, cinza e fundo em amarelo, o amarelo que usam para simbolizar este mês dedicado à prevenção do suicídio, ao Alzheimer e outros padecimentos, desesperos ou temas esquecidos na velocidade em que se apagam as memórias do hoje. A foto, a fiz nos anos 80 em preto e branco. A memória evocada é a dos filhos e nossos filicídios praticados desde a Esparta bélica ontem até às praias da Turquia dos refugiados sírios da guerra suicida de hoje.

Este texto é dedicado aos que demolem, demoliram e demolirão todas as arrogâncias, as onisciências e onipotências, mesmo daqueles ou daquelas que o abraçam ou abraçarão em seu último salto vital... em vão ou não...

Hoje se fala com maior clareza sobre um tema que já foi negado, proibido e excomungado: o Suicídio. Nos dicionários ainda o definem como o ”ato de tirar voluntariamente a própria vida’’. Mas o que seria esse ”tirar’’, ele pressupõe que ela, a Vida, nos é dada, ou que teria e tem um sentido de valor, seja individual ou societariamente. Continuamos nos interrogando.

Desde Albert Camus não mais podemos nos negar a encarar sua relação íntima com outra palavra e experiência humana: a Dor. Camus, em seu Sísifo mítico, nos diz “que não há mais do que um problema filosófico verdadeiramente sério: o do suicídio. Julgar que a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão primordial da filosofia...”. Para a filosofia, desde Epicuro ou Empédocles, já tínhamos as implicações de dor/felicidade, viver in-tensamente, superar a dor do viver ou morrer.

Assisti hoje pela TV a campanha de prevenção de suicídios, e a repórter fez a conexão dos termos, temos hoje um grande número de suicídios, principalmente de jovens, que se matam (além dos que são mortos ou 'suicidados) não apenas pela dor, mas “pela certeza de que ela não cessará”. O que levaria, então, a tantos buscarem o suicidar como saída de algo que não cessa e nem cessará jamais...

Segundo a Radio Onu: “...o primeiro relatório sobre prevenção ao suicídio da Organização Mundial da Saúde, OMS, fez um alerta:  mais de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano no mundo. Isso representa uma morte a cada 40 segundos”.  Para a OMS desses 800.000 mil são, na maioria, jovens entre 15 e 29 anos que se suicidam por ano. Já em matéria daqui crescem o número para 1.000.000 de suicídios, em estatísticas que merecem atenção, mas também um olhar crítico e bioético. Publicam que temos 25 suicídios por dia no Brasil.

Portanto, não bastará um mês, este setembro. Um dia, uma semana ou uma campanha internacional vestindo o amarelo alerta para interromper todas as dores que assolam e se recrudescem globalmente. A produção dos padecimentos, perdas, ruínas, guerras, desfiliações, migrações forçadas, desamparos, depressões, desempregos, trabalhos escravos, gentrificações, pauperizações e desastres econômicos continuam a produzir a serialização de aflitos e de desesperanças no viver.

Morrer se naturaliza e se torna banal. E há os que ainda pregam e legitimam mais armas em todas as mãos...

Não há apenas os que suicidam, na concepção do “tirar” a própria vida, muitas delas já foram “roubadas, vilipendiadas, extorquidas, humilhadas, miserabilizadas”, e daí surgem, como diria Artaud sobre Van Gogh, ‘os suicidados pela Sociedade’. Portanto, repensando a visão ainda condenatória do sujeito, há que repensar a ‘culpabilidade e irresponsabilidade’ dos que, moralisticamente, se sentem violentados pelas dores que os suicídios e suicidas causam.

No Nepal, lá nas alturas, onde se espera que o espiritual seja tão rico como as neves do Himalaia, após o último terremoto, já meio esquecido pelo Ocidente, de acordo com a matéria Agencia EFE: “O número de pessoas que tiram a própria vida subiu no Nepal, com um aumento do 41,24% nos três meses posteriores ao terremoto que castigou o país em abril, em comparação aos três meses anteriores...”.

A maioria, pelos mesmos motivos que afligem a Síria, Ruanda, Haiti, Sudão ou qualquer outro país onde a terra é varrida por bombas, terrorismos ou por tremores, da Gaia ou dos Homens. Há os que são e serão afogados no Mediterrâneo ou no Egeu. Fogem de terrores nas suas terras de origem e se afogam nas águas que podem levar para uma neo escravidão e segregação, quiçá ‘menos’ terrível do que já viviam. Muitos, depois, não suicidarão...

A hora é de resgatar o poeta Jonh Donne e repicar os sinos que também dobram por nós, nós que também somos tão tristemente humanos como o menino sírio na praia turca. Nós que também somos suicidados embora naturalizemos nossas cotidianas e quase invisíveis formas de nos matar. Nós que julgamos covardes ou egoístas os que desistem de atravessar outros mares ou quando não há mares, só desertos e solidão.

Retomo aqui o binômio do texto, há sempre dor no suicídio. Seja dos que o cometem, seja dos que os padecem, experimentam sem tréguas ou dos que a negam tê-la infligido. Abdulá Kurdi, o pai sírio, assim como eu já o fui, deve ter pensado nesse último refúgio diante da perda irreparável.

Aos que não escutam ainda o que é dor do Outro reflitam sobre a frase de uma enfermeira especializada em cuidar e manejar essas dores: “A dor é qualquer coisa que a pessoa que a experimenta diz que é, e existe sempre que essa pessoa diz que existe.” (Margo McCafferty). Talvez isso possa não aliviar e nem diminuir a dor. Com certeza poderá criar o segundo que preciso ter antes de saltar da ponte ou se imaginar nos braços da Dona Morte.

Nos suicídios, nos diferentes suicídios, somos ‘refugiados’ da Dor ou de outras dores....

(copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-2016 favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet e outros meios de comunicação de e para as massas)

IN MEMORIAM de AYLAN KURDI (poema publicado no Facebook 03/09/2015)

NOS MEUS BRAÇOS, ME DEIXAM NATIMORTO...
 (jorgemárciopereiradeandrade 2015)

Nos meus, nos seus, nos nossos braços
Depositam-nos mais um natimorto...
Nasceu como os outros, quase cresceu,
Mas ao mar dos sargaços e dos sarcasmos
Lançados, despejados e quase vivos jogaram...

Nos braços hiper capitais
E de capitães de econômicas areias movediças,
São lançadas, como grãos dessas areias, aos milhares, aos milhões,
Muitas outras, muitos Outros, muitas nuas e re-vestidas
Crianças apátridas e filhotes de guerras,
Filhotes, que não são nossos filhos...

À distância são e serão primeiro Zoé, coisa e bicho,
Depois, como Homo Belicus, nos dizem que somos Bios, somos gente de bem,
Mas nos tratam como nosso próprio lixo, escombros de bombas e perdidas balas...

Já esses/essas que nascem previamente mortos,
Pela falta de preço e apreço, ou royalties bélicos, tão numéricos,
Nas margens onde os crio sem os amar, se tornam Mar,
Oceanos ou barrentos Rios, cheios meninos, meninas naturalmente mortos,
Ou serão eles seus próprios e futuros ontem assassinos¿...

TIREM URGENTE-MENTE, ESSES MENINOS OU MENINAS DOS MEUS BRAÇOS!
QUE AS ONDAS DE NOSSA PUREZA SOCIAL
LIMPEM DE NOSSAS PRAIAS E CONFORMES,
ESSES INCONTÁVEIS, POLUENTES E INFAMES...
LIMPEM NOSSOS TELESCÓPIOS, BINÓCULOS,
E/OU LENTES TELEVISIVAS,
 POIS QUE NOSSAS ‘BOAS’ CONSCIÊNCIAS,
SÓ CHOCAM QUANDO OS ENXERGAMOS BEM DE PERTO...

Matérias publicadas sobre prevenção de suicídios:

Brasil tem 25 suicídios por dia. Estado lança campanha de prevenção https://www.bemparana.com.br/noticia/404829/brasil-tem-25-suicidios-por-dia.-estado-lanca-campanha-de-prevencao





LEIAM TAMBÉM NO BLOG:


OS NOSSOS CÃES desCOLORIDOS - Nossas "depressões" e o Dia Mundial da Saúde Mental  http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/10/os-nossos-caes-descoloridos-nossas.html


A DONA MORTE É GLOBAL, MAS NOSSO TESTAMENTO PODE SER VITAL. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/09/a-dona-morte-e-global-mas-nosso.html

CRIANÇAS SÃO MORTAIS! - O Suicidado pedagógico http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/09/criancas-sao-mortais-o-suicidado.html

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O MEDO TEM MAIORIDADE!! CRIANÇAS LOUCAS E ABUSADAS OU ADOLESCENTES SELVAGENS, QUEM SOMOS?

Imagem publicada – a foto que tirei do cartaz do filme RELATOS SELVAGENS, com os atores principais na capa do DVD, em especial Ricardo Darin, grande ator argentino, ao centro, no seu papel de um engenheiro, especialista em demolições, dirigido por Damián Szifron, tendo ao lado os outros atores, à direita , três pessoas, duas mulheres (uma com um facão na mão e outra de avental, com o homem de terno) e um homem, à esquerda dois homens e uma mulher, essa com um vestido de noiva manchado, descrito como sendo: - “Diante de uma realidade crua e imprevisível, os personagens deste filme caminham sobre a linha tênue que separa a civilização da barbárie...”. Sob o título a frase tema: QUALQUER UM PODE PERDER O CONTROLE. (cartaz que estava no Cine Topazio no dia de seu fechamento em um shopping aqui em Campinas, SP)

 “... A liberdade vem, como parte de um pacote promocional, junto com a desigualdade: minha liberdade se manifesta e será medida pelo grau em que consigo limitar a liberdade de outros que reivindicam ser meus iguais...” (Zygmunt Baumman)

Tive que ver o filme em meio a uma plateia que ria com tranquilidade das barbáries trazidas à tona pelos “selvagens” relatos sem querer se ver no espelho. Os circunstantes espectadores na sala escura não poderiam se identificar projetivamente melhor do que conseguiam. Possivelmente a maioria daquele dia era de nossa chamada ‘classe média’ ou a que esta em ‘ascensão para seu declínio’. O ‘mocinho’ do Audi nos diz: -‘Sabe que você é um negro ressentido. Animal’, para o ‘bandido’ no seu carro mais que velho e cheio de ferramentas de trabalho manual.

Mantive-me, silencioso e reprimida mente, contendo um grito ou uma blasfêmia muitas vezes, principalmente quando a marca de um automóvel de mais de 100 cavalos legitima uma agressão a um veículo comum que traz um ‘cavalo-humano’ comum. Os desfechos deixarei para a curiosidade dos que ainda não se viram nesses ‘relatos’. Espero que alguns de meus leitores possam ter a chance de assisti-lo na tela grande, pois atualmente é um privilégio dos canais a cabo, caso não retorne em salas ditas ‘Cult’...

Ou o ‘baixamos’ pela Internet?Porque trazemos este filme argentino para este momento em que 'legitimados' pelo medo e pela propaganda muitos aceitam a farsa sobre a ‘maioridade penal’? Direi que são pela presença ativa de velhos e desgastados ressentimentos, agora renovados nessa luta atual e contínua pela redistribuição de poder e prestígio. Nossos ressentimentos estão sendo aguçados pelas ‘perdas de posições econômico-sociais’, e propagandeados ‘empobrecimentos’ de nossa middle class.

Os tempos são de novas biopolíticas, aquilo que Zizek chamou de “biopolítica pós-política”, onde desejosos estaríamos de “deixar para trás os velhos combates ideológicos, para se concentrar, por outro lado na gestão e administração especializadas”. E as biopolíticas terem como principal objetivo a ‘regulação da segurança e do bem estar das vidas humanas’.

Então porque novamente reiteramos na proposta de encarcerar os que fazem parte dessa ameaça à nossa segurança, os chamados ‘di menor’? Aí é que naturalizamos, a 'maioridade' penal, apesar de ser comprovado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) de que é baixo o percentual dos crimes que são cometidos pelos ‘menores’. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de 2011, mostram que 70% dos adultos presos reincidiram na prática de crimes. Enquanto que o percentual de adolescentes reincidentes, em 2010, segundo o CNJ, ficou em 12,8%.

 A paixão desmedida que se midiatiza em torno de seus atos de infração ou de atitudes ditas antissociais, é transformada em aprovação de uma ‘maioria dos brasileiros e brasileiras’. O medo desses ‘perigosos’ e ‘potenciais’ infratores é insuflado e hiper dimensionado. E, nós nas nossas poltronas, de casa até o cinema, “realmente’’ o sentimos. O medo desses desviantes é alimentado e forjado pelo próprio medo de ter medo.

Esses são, pois, os tempos de massas que agem como autômatos guiados pelas mídias. Massas on line, ditas majoritárias, que passaram a crer, por exemplo, que é muito saudável eliminar todos os infratores, principalmente os ditos ‘menores de idade’, com seu neo encarceramento legal. O seu Estatuto vira uma ‘eca’, é tornado criança e adolescente socialmente perigoso, delinquente. E o controle penal nega as origens de todas as violências sociais a eles relacionados.

Criem-se, então, novos espaços de punição e de segregação. Os nossos velhos hospícios ou manicômios judiciários poderão ser reaproveitados, desde sua lógica até a sua arquitetura, na construção de novos presídios, novas técnicas de vigiar ou punir. Rebaixem a maioridade penal e autorizem as judicializações de todos os campos e espaços do viver. Naturalizem-se as ‘leprificações’ e ‘gentrificações’ das ‘cracolândias,’ assim como a prisão compulsória dos que nunca irão à Disneylândia.

Assim os nossos ‘relatos selvagens’, por mais que estejam na tela dos cinemas, podem ser suprimidos e substituídos pelos jornalísticos canais de televisão e sua selvageria por audiência, por espectadores ávidos da violência social banalizada.

Recentemente, muitos espectadores piscaram e acenderão suas luzes sob o comando de Datenas e das antenas, pensaram estar protestando contra as mortes em seu bairro esquecido. Hoje, nesse segundo, nem os que me leem se lembram deles e das ruas sangrentas ao leste de São Paulo. Copiam as panelas das varandas que ainda as segregam e delas querem distância.

Os mesmos distanciamentos gerados pelos racismos, homofobias, discriminações de gênero, intolerâncias religiosas, ou quaisquer dos preconceitos contra os sujeitos e suas diferenças, a exemplo de pessoas com deficiência. Os mesmos que ocupam as classificações e as anomalias sociais. Se não são desviantes ideológicos se tornarão institucionais.

Eles e elas, os anormais ou as ‘doenças’, devem ser, institucionalmente, reificados assim como tornados o alimento invisível das sanhas e dos discursos violentadores e segregadores. Qual então é sua proposta de solução final? O admirável mundo limpo e higienizado dos hospitais e dos ‘reformatórios’ modernos, não os hospícios, serão o ideal, assim como os mini manicômios invisibilizados dessas mentes, no social e nas suas redes oficiais. Ironicamente, chamamos a Fundação para esses menores desviantes de “Casa”, mesmo que seu sótão ainda seja FÉ BEM.

Senão, vejamos como estes dis-criminados, são motivo de ‘postagens’, hiper compartilhadas, no Facebook. Esquecemos, como convém que outro dia amarrássemos jovens negros, infratores, pobres e sem direitos aos postes das ruas. Meninos e meninas que, diz a mídia, precisam ser responsabilizados, criminalmente, a partir dos seus 14/16 anos ou menos, por suas próprias discriminações. E, assim serem ‘tratados’ e ‘ressocializados’, ou então, linchados. Afinal, eles não marginais? Sobre eles só temos os 'relatos selvagens'?

Recente matéria sobre o Mapa da Violência no Brasil nos deu, novamente, a informação confirmada de que são estes os que mais morrem por bala e polícia. São, portanto, os que deverão, segundo nossos imaginários e futuros manicômios pós-modernos, ocupar os novos containers-prisões privadas das neo-terapias das Laranjas Mecânicas. E qual será a estatística da cor de sua pele e da sua classe social? Quem gerenciará e administrará essa nova biopolítica? Quem lucrará com essas vidas nuas tornadas ‘maiores’, por força da Lei, enquanto ‘menores’ em todos os seus direitos humanos?

À espera dos novos bárbaros e das novas barbáries, convivendo com as farsas macropolíticas, assistindo a des-laicização do Estado e sua ‘’evangelização’’ cruenta, onde as pedras e apedrejamento dos tempos bíblicos se tornam ‘comuns’ e cotidianos, continuo sofrendo uma profunda tristeza diante desse grave quadro. Meu cerne continua doce, mas me forjam uma carapaça depressiva e neurótica que, lentamente, se associa com nossas pulsões de Morte e negação de meus ‘narcisismos das pequenas diferenças’.

Nessa Idade Mídia reificada, é que, finalmente, me questiono e os questiono: o que, para quê e no que estamos nos tornando? Regressivamente crianças loucas, sádicas e abusadas, realimentadas de ódios políticos, que desejam uma Ordem Ditatorial novamente?  Ou, fascinados por nossos podres poderes, somos apenas os adolescentes protraídos que selvagemente nos recusamos nossa própria maioridade civilizatória e cultural? Quem queremos nos tornar ou re-existir?

Se abrirmos nossos corpos, como máquinas de destruição do Outro e da Diferença, qual crueldade restará nessa menor ou maior parte/partícula de nossas menosVidas?

Eu, aqui, quase sempre re-existente continuo não aceitando o que dizem ser desejo das maiorias. Elas é que se tornam as massas fascistantes e que acreditam nessa falsa solução das maioridades penais ou das prisões no lugar de escolas, educação laica, em e para os direitos humanos, assim como a não homogeneização dos desejos e sonhos como singularidades.

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-2016 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massas e para elas modificados...)

FILME CITADO – RELATOS SELVAGENS - http://www.adorocinema.com/filmes/filme-221270/
TRAILER LEGENDADO - Relatos Selvagens - Relatos salvajes, 2014

LEITURAS PARA QUE REPENSEMOS NOSSOS ‘’RELATOS SELVAGENS’’-

O QUE É VIOLÊNCIA SOCIAL? VIOLÊNCIAS NO PLURAL SE MULTIPLICAM EM TEMPOS DE BIOPOLÍTICAS – Jorge Márcio Pereira de Andrade - in O que é Violência Social? (Jorge P. Andrade, Antônio Zacarias, Ricardo Arruda e Daniel Santos), Escolar Editora, Lisboa, Portugal, 2014.

VIOLÊNCIA – Slavoj Zizek, Boitempo Editorial, São Paulo, SP, 2014.

A ÉTICA É POSSÍVEL NUM MUNDO DE CONSUMIDORES - Zigmunt Baumman, Editora Zahar, Rio de Janeiro, RJ, 2014. (em PDF http://www.zahar.com.br/sites/default/files/arquivos//t1278.pdf)

Notícias que não se tornam ‘’virais’’ nas ‘’redes sociais’’
O Adolescente em Conflito com a Lei e o Debate sobre a Redução da Maioridade Penal: esclarecimentos necessários – IPEA – (documento em PDF) http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/150616_ntdisoc_n20
Disparos de arma de fogo mataram cerca de 42 mil pessoas em 2012 no Brasil http://oglobo.globo.com/brasil/disparos-de-arma-de-fogo-mataram-cerca-de-42-mil-pessoas-em-2012-no-brasil-16150637




AÇÃO URGENTE: Brasil não deve deixar que adolescentes sejam julgados como adultos (Anistia Internacional) - https://anistia.org.br/entre-em-acao/email/acao-urgente-brasil-nao-deve-deixar-que-adolescentes-sejam-julgados-como-adultos/
Leiam também no blog –

O DIREITO A DOIS CADERNOS, QUAL É A NOSSA PREFERÊNCIA? Incluir e/ou Excluir? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/09/o-direito-dois-cadernos-qual-e-nossa.html

O RETORNO DA INCLUSÃO PELA INTEGRAÇÃO: Novos muros nas Escolas, Fábricas e Hospitais. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/12/o-retorno-da-integracao-pela-inclusao.html


domingo, 31 de maio de 2015

NEGROS, DEFICIENTES E MESTIÇOS – AS ENCRUZILHADAS DAS NEO/VELHAS-EUGENIAS e de um biólogo estrangeiro entre os novos ‘selvagens’.

Imagem publicada – uma fotografia histórica em preto e branco de um grupo de jovens ‘meninos’ da Juventude Hitlerista, com seus uniformes e perfilados militarmente, como parte de uma grande massa atrás deles, todos nazifascistas. São todos “brancos, belos, loiros ou de cabelos bons, bonitos, saudáveis, higiênicos, normais, sem defeitos ou degenerescências morais, incorruptíveis, guerreiros, patriotas, sem nenhuma deficiência física ou mental, nascidos de casamentos e famílias arianas, ideais, perfeitos, racialmente puros e compõem a elite de seu povo e sua nação...”. Assim podem, ainda nos dias de hoje, se postularem arrogantemente alguns que se considerarem a elite que deve governar e disciplinar a vida dos Outros. Principalmente, se na fotografia distorcida, tivéssemos atrás deles uma massa de seres de muitas raças, degenerados e, em especial, muitos negros, muitos sujeitos com deficiências, pior ainda se forem todos refugiados ou imigrantes da modernidade líquida. Entretanto, o nosso retrato é colorido e bem maquiado, apesar dos apocalípticos e difusores de biopolíticas do medo, pois os nossos jovens neofascistas ainda são uma das diferentes e múltiplas minoria  da Terra BRasilis.

“O Brasil está destinado, como país da imigração, ser o rebotalho movediço(...) seremos o refúgio dos piores imigrantes. Da análise de nossas estatísticas manicomiais e criminais pode o observador atento concluir que a emigração não desejável (dos norte-americanos) é a que constitui o principal fator de aumento de alienados e delinquentes em nossos manicômios e prisões(...)” (Juliano Moreira apud Cunha Lopes, 1940)

O que acontece se um britânico tropeça e cai em um aeroporto brasileiro? A sua testa e olho são feridos. A sua massa encefálica continuará sendo a mesma? Lógico que sim, a mente desse homem que aparece elogiando a atenção médica e os pontos que recebeu no SUS, não difundida, é a de um eugenista em pleno século XXI. Falo de Richard Dawkins. O mesmo que, ainda hoje, tropeça em discursos higienistas e eugenistas do século passado, no mesmo tom do protopsiquiatra Moreira e do higienista Cunha Lopes.

O seu acidente teve notoriedade pela sua afirmação sobre o SUS, eis a manchete: “BIÓLOGO BRITÂNICO ACIDENTADO EM SP ESCREVE TEXTO ELOGIANDO ATENDIMENTO DO SUS”. Afora a sua surpresa de nossa presteza e rapidez no seu cuidado, seu olhar colonialista continua subjacente na sua surpresa e comparação com seu país. Para ele: “... o atendimento médico na Inglaterra é muito demorado”.

Nenhuma das notícias diz que palestras, que temas e onde proferiu suas ideias. Muito menos sobre seus polêmicos discursos sobre pessoas que não deveriam nem ser concebidas.

Saiamos do Aeroporto de Guarulhos e seus tropeços. Vamos aqui abrir umas páginas da História de nossos primeiros eugenistas. Nelas é que encontrei e encontro respostas, ainda inconclusas, sobre as encruzilhadas que transversalizaram e transversalizam tanto os negros, os mestiços quanto as pessoas com deficiências. A questão racial foi preponderante, a meu ver, para que milhares de pessoas com deficiências, em especial as intelectuais, serem quase uma maioria dentro dos hospícios do século XX.

Indagam-me, recentemente, se não transformaria essa já velha pesquisa em material acadêmico. Respondo que, na minha modesta opinião, ainda não foi criado no mundo científico e universitário um verdadeiro e novo paradigma sobre o tema, a partir de uma visão dos afetados. No futuro quem sabe ou quem desejará fazê-lo? Ainda estão muito distantes de doutoramentos e suas pós, mesmo com as ações afirmativas, os nossos negros, nossos sujeitos possuidores, em um só e no mesmo corpo, desses estigmas da mestiçagem, da deficiência e da escravidão.

Já há um magnifico trabalho da Prof.ª Dr.ª Lilia Lobo, da UFF, sobre os “Infames da História: pobres, escravos e deficientes no Brasil”, tese e livro nos quais, em sua metodologia foucaultiana, desnaturaliza todo o constructos históricos sobre o corpo deficiente, e sua submissão às dominações e disciplinarizações seculares. Lá também são levantadas questões que ainda me faço, já que tive o privilégio da interlocução e convívio com a autora.

São apresentadas em sua obra como as Vidas Nuas em que se transformavam os corpos cativos negros que podemos buscar algumas raízes de corpos infames. Ainda no Império forjaram as imagens monstruosas, dos corpos marginais, passando pelos ‘alienados’ dos manicômios, e, tendo seu ápice nas imagens de anões nus e constrangidos diante de objetivas de laboratório eugênicos no início do Século XX.

Pelos discursos dos eugenistas é que poderíamos buscar os atravessamentos que, trans historicamente, ainda persistem em muitos dos discursos oficiais ou autorizados dentro das universidades e do meio social. O modelo de higiene mental e de eugenia nasceu, foi propagandeada e proliferou exatamente através das falas dos ‘mestres’. Como Lopes ou Moreira, ou mesmo o nosso consagrado Monteiro Lobato e seus amigos.

Na posição de uma das mais eminentes figuras de nossa Psiquiatria, lá em 1906, Juliano Moreira já antevia, nos Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, comentando sobre as moléstias ligadas à herança, dizia que “... em breve surgirá a época da higiene profilática”. Este discurso serviu anos depois para que Cunha Lopes, em 1917, com apoios de outros eugenistas pudesse forjar a constituição da Comissão Central Brasileira de Eugenia.

Esta Comissão tinha como objetivos: a) manter no país o interesse pelo estudo das questões de hereditariedade e eugenia; b) propugnar a difusão dos ideais de regeneração física, psíquica e moral do homem; c) prestigiar ou auxiliar, ad libitum, toda organização científica ou humanitária de caráter eugênico. Poderíamos, retirando o termo eugenia, atualizar e encontrar esses objetivos em discursos de biólogos, geneticistas e até bioeticistas nos tempos atuais? Em que espaço social encontramos maior respaldo de suas ideias e suas crenças científicas?

Encontrem as respostas lendo Dawkins e outros muito atuais defensores da ‘boa herança genética’ ao modo de Gattaca. Para eles e Cunha Lopes se deveria e se deve ‘aumentar a descendência de casais (heterossexuais e puros) geno e fenotipicamente sadios. Aí também se cruzam os discursos de fanáticos religiosos e alguns pastores evangélicos.

E, para atingir as metas eugênicas não teríamos, por esse discurso naturalizado, de procurar limitar o máximo possível a descendência de anormais e restringir a multiplicação de indivíduos hereditariamente inferiores?

Para Cunha Lopes, em 1940: “As medidas que decorrem da eugenia ... dependem do esforço das elites e da educação das massas populares”. Não ouvimos, assistimos e lemos recentemente esse mesmo discurso de ‘limpeza’ de nossas ‘’impurezas político-sociais’’ de nossas chamadas “elites” brancas e verde amareladas? Afinal, segundo ele: “...cruzamento de raças próximas costuma dar bons resultados no tocante ao físico e também para o lado psíquico, ao passo que a mistura de raças mui diversas (esses pardos e pardais) entre si dá resultados desfavoráveis”.

Estamos realmente no Século XXI? Ainda temos de ouvir e ler sobre ‘regeneração nacional’, ‘aprimoramento das populações marginais e miscigenadas’, ‘controle social das degenerescências e corrupções herdadas’? Acho que o biólogo britânico veio por aqui nos lembrar das políticas de esterilização em massa, dos controles biológicos das possibilidades heredológicas desviantes, da castração de inaptos e inferiores de cores de pele perigosas quando associadas a deficiências, inclusive as morais e políticas.

Como então, reagir diante das novas selvagerias e violências que estes ‘neo-selvagens’ e anormais da Terra Brasilis, fazem proliferar? Abolindo a faixa etária para seu extermínio? Antecipando sua tendência para ser cordialmente miscigenado? Construindo novas e sutis formas de controle populacional dessas minorias que são maiorias da cor de pele? Embranquecer os negros, inclusive os ‘portadores’ de ‘invalidez’ social e econômica? Prevenir o surgimento de novos ‘defeituosos genéticos’ e novos sujeitos que se afirmem em suas deficiências como singularidades? Sanear de todos os ‘malditos e infames’ a nossa gloriosa Pátria?

Seriam, como já publiquei, a utilização de novos ‘choques’ e novos ‘testes e técnicas psicológicas’, ou seja ‘científicas’, a maneira perversa e contraditória, para erradicar os preconceitos, as discriminações e as ‘eliminações’ desses Outros anômalos? 

Vejam o que se pode propor para eliminação dos racismos e machismos na experiência desenvolvida em universidades dos EUA (matéria InfoNotícias DEFNET recém publicada no blog). Poderíamos submeter toda aquela tropa de jovens hitleristas às lavagens cerebrais que apagariam de suas memórias os ódios raciais? E dos novos ‘guris’ neo-liberais dos dias de hoje?

Há muitos que ainda se deixam iludir e seduzir pelas nossas colonizadas imagens e sonhos eurocêntricos ou norte-americanófilos.  Nossos eugenistas também o fizeram, visitaram a Inglaterra, os Estados Unidos, a Itália, e, principalmente, a Alemanha, antes e depois dos Nazifascismos surgirem como desejo de massa. Aspiraram serem herdeiros daquelas ‘ciências’.

Foi seu modelo eugenista que se naturalizou através dos muros e das instituições que construímos, fossem os hospícios, as colônias agrícolas ou os manicômios. Nestes espaços instituídos forjaram-se muitas formas de ‘tratamento’, ‘reeducação’, ‘reabilitação’ e ‘educação’ que depois se transformaram nas encruzilhadas institucionais onde se miscigenou o corpo negro, o corpo pobre e o corpo deficiente. E os ‘homens-elefante’ daqui tinham, além de seus feiuras morais também os vícios e defeitos genéticos a serem extirpados.

Há, pois, que também desnaturalizar a fala de um neo-eugenista e biólogo estrangeiro, mesmo que esteja nos elogiando o sistema único de saúde. A sua visão não foi modificada pelo tombo brasileiro. Os seus preconceitos arraigados e ‘cientificamente’ estruturados não foram abalados. Assim com eles há também os nossos conterrâneos contemporâneos, brasileiros e brasileiras, que como as elites do passado ainda pensam obtusamente de ‘de olhos virados para trás’. Pedem até a ‘tortura na hora certa’ e a Ordem como ditadura.

A eles peço que reflitam após assistir como podem os que se considerem melhores, mais puros, mais inteligentes e mais fortes, assim como desejavam os médicos eugenistas, tanto aqui como na Alemanha Nazista, transformar a morte e extermínio, no caso de forma ‘indolor’ pelo gás, de corpos e mentes defeituosas em práticas ‘empresariais’. Assistam o Action 4 urgentemente. Os doutores dessa História também colecionavam cérebros.

E, por favor, convidem o nosso estrangeiro biólogo para esta reflexão. Não se esqueçam de lembra-lo que o SUS foi uma resultante de muita luta pelo direito humano inalienável à saúde para todos, sem discriminação, sem exceções. A família Hulk que o diga.

 E, lhe digam que ainda temos muito a aprender para que os corpos, nas suas diferenças, inclusive as resultantes de nossas inconscientes colonizações, permaneçam na busca da chamada liberdade sócio-política. A mesma que pode ser o antídoto para que nossos desejos eugenistas e fascistantes possam ser combatidos.

Já sabemos que a maioria de nossos corpos deficitários podem ser, estatisticamente, classificados como ainda pobres, marginalizados, negros, violentados, eliminados, neo-escravizados e, perversamente, tornados os principais objetos dos discursos de inclusão. Somos mesmo apenas 24 a 25 milhões de pessoas com deficiência? Qual é mesmo a cor da pele dominante de nossas a-normalidades?

Avisem, enfim, que não é a maioria, ainda, das massas que desejam retornar às garras duras dos Anos de Chumbo, mas que é preciso RE-EXISTIR. O rio da Vida que escolhemos tem águas turbulentas, mas continua correndo, apesar de tentarem represa-lo. O preferimos às águas pantanosas dos lagos estagnados de quem só quer os cérebros para a dominação, a perfeição de si e o ódio ao Outro.

Copyright/left jorgemárciopereiradeandrade 2015-16 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação e dominação de massas)

Matérias da Internet ligadas ao texto -

Richard Dawkins diz que "é imoral" uma mulher dar à luz um filho com síndrome de Dow http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/richard-dawkins-diz-que-imoral-uma-mulher-dar-luz-um-filho-com-sindrome-de-down-13680998

BIÓLOGO BRITÂNICO ACIDENTADO EM SP ESCREVE TEXTO ELOGIANDO ATENDIMENTO DO SUS http://br29.com.br/biologo-acidentado-em-sp-escreve-texto-elogiando-atendimento-do-sus/

LEITURAS CRÍTICAS INDICADAS –

A HORA DA EUGENIA – Raça, Gênero e Nação na América Latina, Nancy Leys Stepan, Editora Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, 2005.

ARQUIVOS DA LOUCURA – Juliano Moreira e a descontinuidade histórica da Psiquiatria,  Vera Portocarrero, Editora Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ,2002.

OS INFAMES DA HISTÓRIA: Pobres, Negros e Deficientes, Lília Lobo, Editora Lamparina, Rio de Janeiro, RJ, 2009. (Veja e leia em - http://www.historiaecultura.pro.br/cienciaepreconceito/producao/infamesdahistoria.pdf

DOCUMENTÁRIO indicado para reflexão sobre eugenia, medicina, psiquiatria e nazifascismo Ação T4: Um Médico sob o Nazismo -   Direção: Emmanuel Roblin País: França Ano: 2014 (Legendado)  -Este documentário relata a história da chamada "Ação T4", que consistia em eliminar deficiências físicas e mentais e pessoas consideradas inúteis e prejudiciais pelo regime nazista. Em espaços médicos e psiquiátricos,  diferentes experiências para sua eliminação, de forma prática, indolor e eficaz foram realizadas, até o aperfeiçoamento das câmaras de gás. Dr. Julius Hallervorden, importante nome na ciência da patologia cerebral, contribuiu para o assassinato sistemático de alemães mentalmente doentes, ordenado por Hitler. Ele, no entanto, seguiu uma carreira brilhante no pós-guerra, impune, e morreu coberto de honras. Entre 1939 e 1945, pelo menos 200.000 pessoas com doenças mentais ou pessoas com deficiências foram assassinadas. Exibições no Canal Curta! - http://old.hagah.com.br/programacao-tv/jsp/default.jsp?uf=1&action=programa&canal=BQ4&operadora=25&programa=0000437625&evento=000000538832631&gds=1&hgh=0

LEIA TAMBÉM NO BLOG –

EUGENIA – COMO REALIZAR A CASTRAÇÃO E ESTERILIZAÇÃO DE HOMENS E MULHERES COM DEFICIÊNCIA? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/01/eugenia-como-realizar-castracao-e.html

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPÍCIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS – http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

"RACISMOS/PSICOLOGIA - Os preconceitos podem ser apagados dos nossos cérebros? Racismo e machismo podem ser apagados do cérebro"  http://infonoticiasdefnet.blogspot.com.br/2015/05/racismospsicologia-os-preconceitos.html


RETORNAR À CASA VERDE, RETROCEDER E INSTITUCIONALIZAR A LOUCURA? OU SOMOS TODOS ‘LOUCOS’? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/05/retornar-casa-verde-retroceder-e.html