sexta-feira, 23 de setembro de 2011

CRIANÇAS SÃO MORTAIS! - O Suicidado pedagógico


Imagem publicada - a foto publicada na mídia da frente da Escola Alcina Feijão. Tem um faixa estendida que traz a seguinte frase: Parabéns, Alunos, Professores e Equipe, pela classificação honrosa: 1º Lugar das escolas públicas de São Paulo no ENEM 2010. Lá, em escala"menor", a tragédia de Escola de Realengo se reproduziu... E um cartaz anuncia que AS AULAS ESTÃO SUSPENSAS... (Foto de Raphael Prado G1)


"... A criança que não fala não conhece a morte, conhece a ausência." (Ginette Raimbault, L'Enfant et la mort, 1977)

Mais um. Mais um aluno revela o quanto precisamos aprender um simples lição: as crianças são mortais. Morte, ou melhor a Dona Morte como a tenho intimamente chamado, é um episódio que afeta profundamente às crianças. E, no nosso silêncio-tabu, não deixamos de matá-las, violentá-las e, mesmo inconsciente e filicidamente, ajudá-las a cometer o suicídio. Negando-nos à aceitação de que as crianças também morrem...


Em São Caetano do Sul, uma escola que tem nome finalizado em feijão, me trouxe de volta ao tema de outros posts do blog. Primeiramente por saber de uma trágica situação de um menino que se suicida (ou é suicidado?), com o 38 de seu pai, após atirar em sua professora. Não irei indagar o que o motivou, já estão afirmando-o uma criança com deficiência física, que mancava e que sofreu bulliyng dos colegas.

A interrogação que nos deverá assolar é: andamos, coletivamente, praticando uma pedagogia da violência? Segundo matéria publicada: a coordenadora pedagógica da Escola Municipal Altina Dantas Feijão, de São Caetano do Sul, região do ABC Paulista, disse nesta sexta-feira acreditar que jamais será descoberto o motivo pelo qual um aluno da escola baleou uma professora para depois se matar.

Ela o descreve como um aluno como uma criança doce, não se envolvia em bagunça - tampouco era quieto demais - e cumpria regras. "A gente via ele brincando, mas nunca em brigas, em confusão ou bagunça".

Aí me pergunto se no perfil do suicidado estará também a pergunta de seus motivos autodestrutivos tão intensos. Estaria o aluno calmo e de boas notas arquitetando há muito tempo como Wellington uma "vingança ou revanche"? Não teremos todas a certezas e nem devemos, onipotentemente, almejá-las. Podemos sim, mas uma vez, com humildade, refletir sobre a mortalidade infantil e o quanto nossas crianças são mortais?

Morrerão ainda muitas caso nossas ações em sua proteção e defesa, intransigente, não for realizada. Morrem, a granel, inclusive no chifre da África ou no Haiti ou nos confins do Brasil, pelos olhos vendados de nosso mundo, um mundo que, como já disse, prioriza os direitos econômicos nessa hora urgente de defesa dos demais Direitos Humanos. 

Nos diálogos sombrios ou metafísicos que tenho de travar com a Dona Morte, nos últimos tempos, andei refletindo sobre a Criança e a Morte. Fui buscar a releitura de Ginette Raimbault. Esta leitura foi realizada há muitos anos atrás quando trabalhei com um grupo de profissionais de saúde a terminalidade da vida. Era um trabalho no Hospital Geral de Bonsucesso, com crianças com um câncer renal inexorávelmente fatal. 

O livro nos traz uma fala das próprias crianças sobre a clínica do luto. Desnudam-se nossos temores diante da Dona Morte. As crianças, com doenças terminais, diante do silêncio dos adultos sobre o tema, não o temem. Pelo contrário mostram com clareza a capacidade que têm reconhecer sua doença, portano a nossa ''mortalidade''.

Recomendo que resgatem essa obra da psicanalista, sua leitura poderá abrir espaço para o mínimo diálogo íntimo com nossa própria transitoriedade e finitude. E, nossos recônditos lutos ou temores da perda, poderão ser melhor compreendidos...

Quanto a escola deste menino e desta ferida pedagogia caberá, para além de um suporte psicológico imediato, uma profunda e séria reflexão sobre os modos éticos e bioéticos do processo de aprendizado sobre o valor da vida e sua vulnerabilidade.

Lá, espero eu, poderá, como em Realengo, vir a ser um foco de revolução molecular sobre a educação para e sobre os Direitos Humanos. Um tema que insisto deverá fazer parte viva e ativa de todos os currículos escolares, do ensino fundamental até às pós-graduações. Nesses muitos anos de aprendizado ainda faltarão muitos outros para que o respeito à Vida e ao Outro se consolidem.

O nome do suicidado é/era Davi, como os mesmos 10 anos de minha filha Isadora. Por, ela e todos que merecem um Outro Mundo Possível é que continuarei indagando: - Diante de novos Davis, armados ou não, nós somos/seremos seus Golias, tirânicos, disciplinadores e imperialistas, a serem derrubados com uma pedrada ético-política vinda da Palestina ou da Somália? Temos de cuidar para que as escolas permaneçam o lugar da diferença, e não se tornem novos campos de disciplinamento de corpos ou Vidas Nuas.

Descanse em paz, então este Davi, lá no Cemitério das Lágrimas, pois não podemos "descansar", enquanto existirem outros a serem menos vulnerabilizados e violentados. Ainda temos de construir um outro modo, ético, político e estético, para a(s) vida(s), pequenas ou maiores, de cada criança que habita o planeta Terra.

Lembrem-se: as crianças são mortais. Mais ainda se as armamos com nossas piores desatenções. Hoje no muro da escola estava escrito: uma criança chora e os pais não vêem. Escutemos em nós as nossas próprias crianças e suas vulnerações. Uma criança que é imortal em cada um(a) de nós...


Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2011-2012 (favor citar a fonte em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

Leitura indicada: A Criança e a Morte ( Crianças doentes falam da morte: problemas da clínica do luto)- Ginette Raimbault - Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro, RJ, 1978

Notícias citadas:


SP: nunca saberemos motivação de aluno atirador, diz pedagoga http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5368220-EI5030,00-SP+nunca+saberemos+motivacao+de+aluno+atirador+diz+pedagoga.html

Aluno de 10 anos atira em professora em escola de São Paulo http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/aluno-de-10-anos-atira-em-professora-em-escola-de-sao-paulo/n1597223769645.html

Namorado diz que professora baleada não se queixava de aluno
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/09/garoto-era-aluno-exemplar-diz-professora-namorado.html

LEIA TAMBÉM NO BLOG:

O SUICÍDIO E A DOR - http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2015/09/o-suicidio-e-dor.html

TIROS REAIS EM REALENGO - A VIOLÊNCIA É UMA PÉSSIMA PEDAGOGA? - http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/04/imagem-publicada-imagem-de-bracos-e.html

AOS PAIS QUE APRENDERAM COM A(R) DOR AS PERDAS - http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/08/aos-pais-que-aprenderam-com-ar-dor-as.html

A TOLERÂNCIA É MAIS QUE UM BACALHAU NO MEU FEIJÃO COM ARROZ - http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/07/tolerancia-e-mais-que-um-bacalhau-no.html

O JUQUINHA E SUA CADEIRA - POR UMA EDUCAÇÃO DIFERENTE - http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/07/juquinha-e-sua-cadeira-por-um-educacao.html

A AMIZADE COMO ALICERCE DA INCLUSÃO ESCOLAR - Saindo das fraldas? - http://infoativodefnet.blogspot.com/2011/07/amizade-como-alicerce-da-inclusao.html

7 comentários:

  1. Querido Jorge Marcio,

    Obrigada por nos trazer essa reflexão, na insanidade nossa de cada dia , muitas vezes, deixamos de perceber o quanto estamos matando nossas crianças, matando em vida os que são a renovação da própria vida

    Me pergunto, o que estamos fazendo das nossas crianças, hoje tive uma situação com meu filho na escola e, lendo seu texto me veio uma sensação de que fazemos de nossas crianças vítimas de uma pedagogia repressora, desumana e mortal

    Que educação nós queremos de fato?

    Que mundo é esse que estamos construindo ou será que estamos desconstruindo o mundo??

    Sei lá, só sei que estou muito angustiada com tanta crueldade na educação e nos educadores de nossas escolas.

    Abraços enlutados

    Naira Rodrigues

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  2. Carissima e querida NAIRA

    Como sempre seus comentários são um estímulo para que eu possa ir ainda mais fundo em minhas inquietações. Hoje também tive de pensar e repensar minhas atitudes educacionais com minha filha. E repensar a atitudes educacionais que vem sendo implantadas nas diferentes escolas (publicas, privadas, com orientação religiosa, etc...) e me interrogo sobre qual pedagogia estamos instituindo?? e se a força libertadora do processo de aprender a aprender não vem sendo esvaziado em prol de formamos muito mais ''mão de obra'' do que ''cidadania crítica e ética'' para o nosso Mundo Globalizado.
    UM ABRAÇO DOCE E TERNO
    JORGE MARCIO (tambem enlutado por diferentes perdas afetivas de nossas crianças...)

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  3. Jorque querido, como sempre, você põe o dedo na ferida e dexa sangrar,
    para assi, quem sabe, deixar sair toda doença e, finalmente, nascer um
    ornaganismo (socil?) são. Suas palavras e reflexões são contundentes,
    viscerais e sempre me emocionam. Sobretudo sua indignação e persistência
    na defesa de uma vida digna. Que bom que existe o DefNet! Que bom que
    existem pessoas como você, que não nos deixam dormir na paz de um mundo
    ficticiamente organizado por seres humanos que não sabem nada sobre
    humanidade!

    Katia Fonseca

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  4. Querido Jorge
    E parece que quanto mais os dirigentes educacionais pensam estar contribuindo para a formação dos alunos, mais distantes estão ficando.
    Não é de hoje que observo o abismo entre o que, generalizando, esses meninos e meninas precisam e o que eles na prática recebem, tanto em casa quanto na escola.
    Dos quatro pilares da educação me parece que só dois permanecem de pé e muito mal das pernas.
    No aprender a conhecer faltam os instrumentos adaptados à nossa realidade para que isso aconteça de forma eficiente.A distância ainda é muito grande entre a vida que essas crianças levam fora das escolas e o que as escolas, enquanto instituições, acreditam que seja o melhor para elas.
    O aprender a fazer vai esbarrar justamente na comunicação.Não há motivação para que elas verdadeiramente se expressem porque mais do que nós, elas temem a crítica e a repreensão.
    E já o aprender a conviver com os outros e aprender a ser, simplesmente não existem na prática.
    Um ponto que considero relevante nessa questão é que se a criança não é respeitada, simplesmente não aprende a respeitar.E daí por diante.
    Quanto ao que aconteceu na escola de São Caetano do Sul e em tantas outras que não temos notícia, com maiores ou menores conseqüências, eu só posso lamentar. Porque em casos assim, ninguém ganha, todos perdem.

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  5. Parabéns amigo pelo plantão cidadão permanente!
    abs
    paulo amarante

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  6. Caro Jorge!
    Confesso que fiquei triste e ao
    mesmo tempo feliz por constatar, que existem pessoas como você, preocupadas com um mundo mais justo e igualitário. Também me chamou a atenção o fato de que como medico psiquiatra, no caso dessa tragedia, voce explorou motivos bem maiores e reais, como direitos humanos, vulnerabilidade e bioeticos. Ao invez de possiveis patologias psiquiatricas na criança e/ou familiares.
    Como professora universitária, penso também que uma grande mudança curricular deve acontecer desde o início da nossa formação, para não somente formarmos técnicos, mas sim verdadeiros cidadãos.
    Grata,
    Vanusa Maria Bispo

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  7. Excelente chamada de atenção

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